CURIOSIDADE MATA. OU NÃO.

CURIOSIDADE MATA. OU NÃO. João e Vitor são colegas de trabalho numa empresa localizada na cidade de São Paulo. Na verdade, não nos interessa saber se a empresa fica em São Paulo ou não. Poderia ficar em Piracicaba, Pirassununga ou Pirapora Mirim. Ou até em Rondonópolis. O que também não importa é colocar em cheque a natureza jurídica da empresa, para o que ela se presta, qual sua função perante a sociedade. Poderia ser um escritório de advocacia, uma empresa de importação de brinquedos, uma imobiliária, um colégio ou um teatro. Tanto faz. O que realmente importa é dizer que João e Vitor são colegas de trabalho. Realmente, ‘colegas de trabalho’ seria uma expressão bastante adequada e oportuna para a ocasião. Isso porque, não se pode considerar que João e Vitor sejam nada além de colegas de trabalho, apesar do muito bom desempenho de ambas as partes para o convívio social nas instalações e imediações da empresa. Sempre que se cruzam, João cumprimenta Vitor com um aceno ou um aperto de mão ou uma interjeição verbal onomatopeica qualquer ou um abraço efusivo, a depender do tempo em que não se vêm ou da medida da necessidade que tem Vitor de falar com João e vice e versa. São raras as ocasiões em que Vitor precisa falar com João e vice e versa. Uma vez ou outra, somente, a ocasião do encontro se traduz na possibilidade de se falar de assuntos corporativos ou relacionados às suas respectivas funções na empresa, sejam elas quais sejam, não importa. O fato é que o trabalho do um não impede ou impossibilita a evolução do trabalho do outro, nem vice e versa e nem versa e vice, muito pelo contrário. Metaforicamente falando, se um fosse o carteiro, o outro seria o jardineiro. E vice e versa. Porém, ainda que, nesse caso, a necessidade não faça o monge, é certo dizer que tanto João quanto Vitor, sempre que se encontram, se embrenham num exercício às vezes dialético, às vezes enigmático, mas que, via de regra, carrega sempre um caráter social e de crescimento intelectual mútuo. João e Vitor adoram dizer algo um para o outro, seja uma piadinha besta, seja alguma fofoca inocente sobre alguém, seja falar de futebol ou motocicleta ou álbum de figurinhas da Copa do Mundo, enfim. Ora o assunto é urgente, ora displicente, ora engraçado, ora sério, ora apressado, ora de longe, ora de perto, ora sozinhos, ora no corredor lotado de gente. Mas frequente. Todos os dias, várias vezes, na chegada, durante o expediente, no intervalo, no almoço, no café. Só não têm a audácia e a coragem de fazê-lo na sala do chefe, obviamente. Não são estúpidos. Quer dizer, não são, assim, tão estúpidos. Vejamos. Certo dia, João encontrou Vitor e lhe disse: - Te encontrei, finalmente. Preciso te dizer um negócio, muito importante. - Claro, diga. - É realmente muito importante. - ... - Esqueci. João realmente precisava falar algo para Vitor. O procurara por toda a empresa durante não menos que exatos quarenta e sete minutos, um pouco mais, um pouco menos, mas não o encontrara. Também, pudera. Vitor estava tendo problemas intestinais no banheiro. Esteve incomunicável por trinta e nove minutos e oito segundos, mais os quase oito minutos que estava ocupado comendo um espetinho de frango do boteco da esquina da rua da empresa, atravessando-a. Quando Vitor, um pouco pálido, andando qual um Zumbi pelo corredor da empresa em busca de um café bem forte que o colocasse pronto e restabelecido para o trabalho, encontrou João um tanto desesperado vindo em sua direção dizendo que tinha algo muito importante para dizer mas havia esquecido, realmente, não entendeu nem soube como lidar com aquela situação. Com a concentração ainda em seu intestino delgado e reto sensíveis, não sabia se o fato do colega de trabalho esquecer o que ia dizer lhe causava um certo desconforto, ou comoção ou risada. De fato, risada. Aquela cena era muito engraçada. Infelizmente não pode externar seu contentamento e alegre satisfação por dois motivos muito simples. O primeiro, por causa de seu ainda presente mal estar, que lhe deixava pálido e sem disposição. Mas o segundo e principal motivo, era porque João realmente estava constrangido com seu esquecimento. Aquilo nunca lhe ocorrera. Sua frustração, porém, durou apenas três segundos, um número mágico segundo alguns especialistas, após os quais explodiu numa gargalhada expondo sua ridícula situação. Vitor, apesar de estar literalmente ‘travando o cu’, com o perdão da palavra, fazendo um esforço hercúleo para não soltar um punzinho liquefeito, também deu uma risada tímida, mas guardando consigo para a eternidade seu regozijo momentâneo, causado por aquela situação bizarra e hilária, protagonizada pela patuscada de seu colega de trabalho João. A partir deste dia, criou-se entre os dois uma cumplicidade bastante inusitada. Todas as vezes que se cruzavam no corredor, um dizia ao outro que tinha algo importante para dizer, mas que havia esquecido, que não conseguia se lembrar de jeito nenhum, e ambos se deixavam cair numa gostosa gargalhada, um tanto disfarçada para não vislumbrar uma possibilidade de reprimenda por parte dos colegas, ou advertência por parte da gerência, ou até mesmo uma demissão por justa causa. Afinal, nunca se sabe até onde o recalque corporativo é capaz de chegar. Um divertimento descompromissado, no horário e local de trabalho, muitas vezes pode ser visto com descaso e desgosto e tratado como falta de vontade e corpo mole, como dizem por aí.. Mas não entremos neste mérito. O que realmente deve aqui ser colocado é que a cumplicidade entre João e Vitor crescia cada vez mais. E cada vez menos se importavam com a opinião alheia e consequências de seus atos. Certa vez, João estava do lado de fora da sala da manutenção da refrigeração, simplesmente conferindo uma papelada que teria que levar para o gerente assinar, quando Vitor o viu e andou em sua direção. Aquela disposição vislumbraria certamente mais uma daquelas brincadeiras que os dois se permitiam. Não seria diferente desta vez, assim como essas circunstancias se repetiriam por muitas outras vezes. - Ô João, ainda bem que eu te encontrei, cara. Tenho um negócio pra te dizer, é meio urgente. - Claro Vitor, pode dizer. - Tem a ver com aquela nossa conversa de antes, que foi interrompida, e eu não consegui te falar sobre a decorrência um pouco grave daquela situação... - Estou aqui, Vitor, pode dizer. - Então, eu diria, mas esqueci. E os dois riram até não poder mais. Noutra ocasião, Vitor estava junto à maquina do café, que, verdade seja dita, não é lá aquela Brastemp, muito menos aquela Nespresso, mas enfim, é um café tomável, até a terceira xicara, após a qual a chance de se desenvolver uma gastrite ulcerosa é enorme, mas isso não vem ao caso. Bem, Vitor estava se servindo de um cafezinho no meio da tarde quando João chegou bem pertinho e falou sussurrando em seu ouvido, disfarçando para que ninguém percebesse de quem se tratava seu interlocutor; - Vitor, sou eu, João, não olha pra trás, continua aí pegando seu café. Vitor continuou concentrado no café enquanto João acompanhava o movimento do corredor, ora assoviando ora conferindo a unha mal lixada. - Preciso te dizer um negócio muito importante. É muito sério. Ninguém pode saber que eu te falei. NÃO OLHA PRA TRÁS. É o seguinte... Quando ia dizer, o gerente para assuntos alheatórios da empresa passou e se colocou bem entre os dois para se servir de um café. Definitivamente, aquela localização não era a melhor para troca de segredos. Tanto a máquina do café, disputadíssima, quanto o corredor onde estava localizada, pelo fato de ser um local de passagem de pessoas, era um lugar muito pouco propício à troca de confidências. João teve que interromper a conversa com Vitor, ao menos pelo tempo em que o gerente para assuntos alheatórios permanecia lá, junto à maquina do café. Após alguns instantes, quando este se dirigiu para sua sala, com o café na mão, Vitor se virou para João e perguntou o que era tão sério que teria que ser dito ali, naquele exato momento. João, com uma cara de poucos amigos, imprimindo ao diálogo o tom da seriedade que a ocasião pedia, disse, ainda sussurrando: - Esqueci. E as gargalhadas saíram espontâneas e em alto volume, causando um certo constrangimento. Ainda que fossem baixas as risadas, suas expressões corporais denunciavam um regozijo tremendo e uma alegria e satisfação de viver com prazer naquele ambiente hostil, na contramão da esmagadora maioria dos funcionários da empresa. Após a consolidação absoluta da estrutura lógica da piada dialogal, em que a sequência de frases já estava preestabelecida e, com pouca variação, o diálogo se apresentava sempre da mesma maneira, foi possível verificar, gradativamente, uma leve adaptação. No inicio, que durou umas duas semanas, pouco mais, pouco menos, a clímax da brincadeira consistia no fato do esquecimento. Ou seja, João e Vitor sentiam-se plenos quando um ou outro dizia ter esquecido algo que deveria ter dito. Com o passar do tempo, as variações foram surgindo e acabaram por diluir a estrutura lógica até então padronizada. Vitor e João já se sentiam mais livres para transitar por outros aspectos possíveis da brincadeira. Certa ocasião, João chegou atrasado, passou pelo corredor correndo, chegou ao relógio de ponto, furou a fila, bateu seu cartão de ponto, e foi se dirigindo ao seu cubículo, quer dizer, sala. Antes mesmo de passar pela máquina do café, que estava em manutenção, pela terceira vez naquela semana, Vitor o surpreendeu: - João, meu chapa, tá atrasado, hein? - Pois é. Tá na boa? - Beleza. Precisava te falar um negócio. - Cara, tô muito atrasado. Quer vir comigo? Vai falando aí. - Não, não. É um assunto meio sério. Depois eu passo lá na sua sala. - Beleza. Passa lá então. E João já estava chegando ao seu cubículo, quer dizer, sala, enquanto Vitor já dava meia volta e passava novamente ao lado da máquina do café, que no momento aglomerava alguns desavisados em busca dum coffe break, o que seria impossível, óbvio, posto que a máquina estava em manutenção, pela terceira vez naquela semana. E algum tempo se passou sem que João cruzasse com Vitor e vice e versa. E mais outro tempo se foi, talvez algumas horas, sem que Vitor esbarrasse com João e versa e vice. Finalmente, no final do expediente, quando João e Vitor finalmente se encontraram, um falou pro outro: - Cara, ainda bem que te encontrei. Preciso te dizer um negócio muito importante. - Putz, cara, justo agora? Tô de saída. Pode ser outra hora? - Não, tudo bem. A gente se fala outra hora. Quem sabe amanhã. - Beleza, então. Até amanhã. E estabeleceu-se um novo padrão na brincadeira. Já não valia mais saber que se havia esquecido de dizer algo que deveria ter sido dito. Agora, a bola da vez era saber que se tinha algo a ser dito, mas o momento propício sempre vinha num futuro próximo e incerto. A partir de então, toda vez que João encontrava Vitor e vice e versa, a conversa seguia por caminhos em que a problemática era sempre adiada, nunca podia ser solucionada no momento presente. No dia seguinte, João chegou, passou pelo corredor e reparou que a máquina do café ainda estava em manutenção, o que lhe deixou resignado e ao mesmo tempo chateado, já que sua vontade de tomar um cafezinho não era nada pequena. Quando avistou Vitor, chamou-o de maneira que todos pudessem escutar. Não pode evitar. Vitor estava longe e o único jeito era gritar em alto e bom som. Claro que Vitor olhou, mas também olharam outras nove pessoas que estavam passando por lá ou simplesmente paradas conversando umas com as outras. Vitor olhou e acenou para João, um pouco tímido e constrangido com o fato de virar o centro das atenções de um milissegundo para outro. João também ficou abalado com a fama repentina, ainda mais com a expectativa sobre si criada de que falaria algo para Vitor. No entanto, João perdera totalmente a vontade de dar prosseguimento à brincadeira. Mas, ainda que uma repentina depressão e sentimento de vergonha tenha se abatido tanto sobre João como sobre Vitor, é certo que quando os dois se olharam, a ânsia lúdica tomou conta de seus espíritos, retomaram o brilho de seus olhos e Vitor respondeu, em alto e bom som, para todos ouvirem: - E aí, João, beleza? - Beleza, meu. - Fala aí. - Então, tenho um negócio pra te falar. Mas depois eu falo. É meio que particular. Nesse exato momento, Vitor teve um que inexplicável, algo sobre o distanciamento de sua percepção e consciência sobre si mesmo, de maneira que se pudesse enxergar fora de si, numa relação quântica extracorpórea. Enfim, o que se quer dizer é que Vitor, apesar do constrangimento que lhe bateu de pronto, veio uma vontade de troçar com todos aqueles que julgavam ter algo importante para ouvir de João. - Ah, então beleza. Depois você passa lá e me fala. Agora fiquei curioso. Claro, também, que João passou pelo mesmo processo de evolução espiritual que Vitor, e também sentiu uma enorme satisfação ao troçar com aqueles curiosos que queriam saber o que João tinha de muito importante para dizer. E os dois deixaram o corredor, com resquícios da cena que acabaram de interpretar, diante dos olhares curiosos de nove funcionários e de mais outros dezesseis que chegaram após o início do espetáculo, com o intuito de alimentar a curiosidade de saber o que estava acontecendo. A partir daí, tornou-se evidente a terceiros que João e Vitor guardavam entre si um segredo. O que seria? A curiosidade ganhou tamanha dimensão a ponto de João e Vitor meio que serem evitados nas passagens do corredor ou no café ou no banheiro ou onde quer que fosse. Estavam sendo perseguidos pelo silêncio. Todos os ignoravam. Até mesmo os que não haviam presenciado o último episódio pessoalmente já sabiam do que se tratava e apoiavam os que tiveram o desprazer de registrar a cena no momento exato do calor da hora. Criou-se, até, um banco de apostas cujo objetivo envolvia o segredo ou segredos que João e Vitor mantinham entre si. O que seria? Teria a ver com o trabalho? Ou com aquelas pessoas? Alguma traição? Promoção ou demissão velada? Alguma medida arbitraria de algum chefe em benefício da própria Companhia? O que seria? A curiosidade estava minando o bom humor das pessoas. Não se podia mais trabalhar. Só se falava de João e Vitor e seu segredinho. A situação estava ficando insuportável. Por outro lado, João e Vitor se divertiam com a situação toda. Mesmo sabendo que todos evitavam travar contato consigo, continuavam com a brincadeira, agora não mais para si, mas ampliando a área de visão, fazendo com que o maior número de pessoas visse. - E aí, João, beleza? - Beleza, Vitor, e você? - Beleza. Vem cá, preciso te falar um negócio, bem importante. - Beleza, passa lá depois e a gente conversa. Tenho um negócio pra te dizer também. - Falou. - Falou. E partiam cada um para um canto do corredor, deixando para trás, com um leve sorriso de canto de boca, uma névoa de ciúme e inveja e curiosidade acima de tudo. O clima de insatisfação era geral. Todos queriam saber os segredos de João e Vitor e chegou-se a ouvir de alguém que pagaria uma contribuição a outrem se outrem trouxesse a alguém alguma informação que desse uma indicação sobre a verdade dos segredos entre os rapazes. Certo dia, João e Vitor foram anunciados à sala do gerente da Companhia, bem no final do expediente. Quando entraram, estavam lá o diretor para assuntos gerais, o diretor para assuntos estéticos, o diretor para assuntos alheatórios e o leva e trás oficial da Companhia, o porta recados, como dizem por aí. O gerente da Companhia apontou para duas cadeiras velhas, indicando onde João e Vitor deveriam se sentar. João e Vitor não podiam imaginar o que eles tinham para dizer. Quer dizer, pressentiam que talvez pudesse ter alguma coisa a ver com aquela brincadeira que vinham fazendo e que culminou naquele circo, fazendo despertar uma leve curiosidade nas pessoas. E o que era mais engraçado, é que não havia segredo nenhum. E ninguém, exceto Vitor e João, sabia disso. Assim que os rapazes se sentaram, o gerente da Companhia se levantou, encheu o peito de ar e, numa pose de pompa absoluta, começou dizendo algo sobre a Companhia, como sua função social era absolutamente indispensável, mas que ela dependia do bom andamento interno, e isso queria dizer que os funcionários tinham que estar alinhados com a sua filosofia e uma série de outras porções de blá blá blá. João e Vitor já estavam se perdendo no fundo de seu inconsciente e, como se estivessem mergulhando numa espécie de torpor onírico, embarcaram numa realidade paralela, mas que guardava ao fundo, em volume bem baixo, aquela lenga lenga toda proferida pelo gerente da Companhia. Até que, de repente, ouviu-se uma sola de sapato sendo batida sobre a mesa, o que fez os rapazes despertarem imediatamente, com palpitações e taquicardias. - Porque vocês tem que prestar atenção quando eu estou falando com vocês, porque eu sou o gerente e vocês tem que cumprir as obrigações que eu estabeleço que devam ser cumpridas e porque vocês são meros funcionários secundários da Companhia e porque se eu quiser eu posso demiti-los por justa causa e porque... Nesse momento, João olhou para Vitor e levantou a mão, esperando sua vez de se colocar. Afinal, não poderia se tratar de um interrogatório medieval. Ele teria, claro, que ter o direito de se defender. Mas o gerente da Companhia ainda tinha outros planos antes de deixar os rapazes falarem, e passou a palavra para o diretor de assuntos gerais, que falou, talvez com alguma mudança ligeira na ordem de algumas palavras ou usando expressões correlatas, exatamente a mesma coisa que o gerente da Companhia, porque vocês são funcionários e tem que obedecer aos seus superiores e etc. Não bastasse, o diretor de assuntos gerais passou a palavra para o diretor de assuntos estéticos, que por sua vez passou a palavra para o diretor de assuntos alheatórios, que por sua vez, mudou em nada o discurso, porque vocês devem obediência e são funcionários que tem chefes e os chefes somos nós e portanto vocês tem que nos obedecer e blá blá blá e lenga lenga e etc etc etc. Retomou a palavra o gerente da Companhia, que decretou a punição a ser cumprida pelos condenados João e Vitor. - Eu, na qualidade de gerente da Companhia, instituído do dever de zelar pela manutenção das estruturas e cuidar do bem estar de meus funcionários, intimo todos a comparecer ao auditório, em tal dia e tal horário, momento no qual vocês deverão pronunciar-se diante da Companhia toda, dizendo, um por um, todos os segredos que vocês guardam entre si, bem como formalizar um pedido de desculpas sinceras. João olhou para Vitor e Vitor olhou para João. Aquela situação era muito inusitada. O engodo precisava terminar. Não podiam mais deixar aqueles pobres coitados acharem algo ou terem alguma ideia sobre o que nem existia. Absurdo. Era preciso dar um fim naquilo tudo. Então, com o consentimento de Vitor, João tomou a palavra. Já vislumbrava a necessidade de ser bem cauteloso na lida com aqueles cidadãos. Afinal, todos eles eram seu chefe, de onde se atribui a famosa máxima corporativa, na qual se diz que existem muitos caciques para poucos índios. Ou quem pode manda e quem tem juízo obedece. Teria, portanto, que tomar cuidado. - Boa tarde, senhor gerente da Companhia, como vai, senhor diretor de assuntos gerais, satisfação em vê-lo, senhor diretor de assuntos estéticos, olá, senhor diretor de assuntos alheatórios. Desejo-lhes uma boa tarde e que os senhores e suas digníssimas esposas e filhos e filhas estejam passando bem, no melhor dos conformes e blá blá blá e lenga lenga e etc etc. Mas ainda não havia chegado a hora de falar. Novamente, o gerente da Companhia colocou-se em posição de superioridade, mandou o menino ficar quieto com um gesto imperativo e retomou a palavra dizendo: - Eu ainda não terminei. Por favor, não nos interrompa. Era ele quem estava falando, embora insistisse em falar em nome de todos os presentes na sala, exceto, óbvio, João e Vitor. Nós, da diretoria da Companhia, não somos mais importantes que os demais funcionários. Não temos o direito nem o merecimento de saber do vosso segredinho antes que todos. Vocês serão autorizados a revelar o que tem a dizer, em primeira mão, para todos ao mesmo tempo, no auditório, em tal data e tal horário. João olhou pra Vitor. Vitor, por sua vez, retribuiu o olhar a João, que era de total surpresa e estupefação. Em primeiro lugar, não conseguiam entender aquele discursinho babaca que acabavam de ouvir, de que não eram mais importantes que os demais funcionários e lenga lenga e blá blá blá e etc. Nem uma mosca à beira da morte e da lata de lixo acreditaria. Ridículo, absurdo, bizarro. Por outro lado, tinham sido convocados a revelar para toda a Companhia seu segredo. E já que não puderam dar fim ao engodo naquele momento, não por culpa deles, até que tentaram, mas por culpa daqueles diretores imbecis que exigiram um anúncio oficial e extenso a todos, então que assim fosse. Resolveram armar o circo. Inventaram a maior cena. Quando chegou o dia tal na hora tal, todos já estavam no auditório. Até a moça da limpeza tinha sido convocada. Se uma bomba explodisse lá dentro naquele momento, a empresa deixaria de existir de um momento para outro. Enfim, mas isso não vem ao caso. O fato é que todos aguardavam ansiosamente, num misto de raiva e ciúme com inveja e curiosidade corrosiva da pior espécie. Poucas unhas sobreviveram àquela manhã. O dia do grande anúncio havia chegado. No palco do auditório foi montada uma estrutura de microfonagem, para que todos pudessem ouvir os discursos confortavelmente. Quem abriu o evento foi o diretor para assuntos gerais da Companhia. E ele assim começou, desatando o nó da gravata: - Porque nós somos um time de remadores que tem o objetivo de chegar em lugar certo e determinado no menor tempo possível. E todos nós devemos remar. Uns remam mais, outros remam menos. Poucos determinam o ritmo da remada, mas todos remam. Todos devem remar. E na mesma direção. E quando há algum remador fora do ritmo, isso atrapalha. Ou quando resolve remar no sentido inverso, o transtorno é imensurável. E todos os remadores devem ter plena consciência que são os verdadeiros responsáveis pelo sucesso da jangada, que é essa Companhia. E depois de mais blá blá blá e lenga lenga, o diretor para assuntos gerais da Companhia passou a palavra para o diretor para assuntos estéticos, que se colocou em frente ao microfone, desatou o nó da gravata, tirou os óculos, deu um longo e prolongado bocejo, passou a mão pelo rosto como se estivesse tirando o cansaço de sua fisionomia, e disse: - O meu desejo é que tudo isso se resolva da melhor maneira possível, sem causar qualquer tipo de dano à imagem da empresa. Apesar de causar um mal estar, principalmente em João e Vitor, que aguardavam sua entrada triunfante ao lado do palco, o evento deveria continuar. Tomou a palavra o diretor para assuntos alheatórios, que foi bastante breve e, dizendo que não tinha nada a acrescentar, passou o microfone ao próximo da fila, que era o gerente da Companhia. Este tomou posição, já estava sem gravata, desabotoou a camisa, tirou um lenço de pano xadrez do bolso e enxugou a testa ensopada de suor, tirou um papel dobrado do outro bolso, tirou um óculos de leitura do bolso da camisa, um daqueles de grau pré fabricado que se compra na farmácia, equilibrou-o sobre o nariz nada pequeno e horizontalmente protuberante, tirou um ou dois pigarros da garganta, desculpou-se pelo inconveniente, teria bebido um copo d´água se o tivesse disponível ao alcance da mão, e começou a ler: - João Carneiro da Cunha Sobral, RG de número tal, CPF não sei qual, funcionário da Companhia há meia dúzia de décimos terceiros. Vitor Ribeiro de Andrade Piraquê, RG não sei o que, CPF vai lá saber, funcionário da Companhia há uma dúzia de férias remuneradas. Por gentileza, dirijam-se ao palco. Sob olhares atravessados, alguns irados, outros apenas interessados, mas todos curiosos, João e Vitor se encaminharam para a frente do microfone. - Boa noite a todos, falou Vitor. Sinto um prazer imenso em estar aqui convosco, compartilhando alguns breves momentos de sabedoria e prosperidade e iluminação. Encerrou seus dizeres, com o olhar catatônico para o microfone, mas por dentro sentia um gozo violento. Estava, na sua mais profunda entranha, lá no intestino, gargalhando até não poder mais. - Com licença, tomou a palavra João, roubando da mão de Vitor o microfone. Meu colega está variando na lógica discursiva. Creio que deve ser o stress de estar falando para tantas pessoas, e tão importantes e bem sucedidas. Sua gargalhada intestinal estava no nível máximo. Aos mais observadores, que não estavam representados naquele auditório nem sequer pelo mais perspicaz daqueles pobres funcionários, poder-se-ia perceber aflorar sensivelmente no canto dos lábios uma pequena deformação latitudinal que se poderia considerar, nos meios científicos, como sorriso. Mas, claro, esse fato passou completamente batido à compreensão visual de todos. E continuou o discurso. - Meu colega e eu estamos profundamente resignados com o comportamento cruel de ordem pejorativa, num claro intento de romper com a ordem e bom relacionamento dos funcionários da Companhia, da qual somos imensamente gratos e orgulhosos de fazer parte, e blá blá blá. João continuou dizendo que se arrependiam amargamente de ter incitado a curiosidade em todos, esse sentimento mesquinho que só corrói o espírito humano, e que se sentia mal por ter causado tamanho desconforto. Vitor tomou a palavra: - É o seguinte. Meu colega aqui tá tentando tapar o sol com a peneira, botar panos quentes, mas a verdade é que nós temos vários segredos. E vários deles dizem respeito a vários de vocês. Ouviu-se um buchicho bastante severo e um considerável aumento no nível de animosidade no auditório. João olhou seriamente para Vitor, meio que perguntando aonde o mesmo queria chegar. Vitor não deu bola e continou: - Nós contamos segredos uns aos outros, de todo o tipo de ordem, sobre pessoas – e falando em pessoas, levou seu braço em passagem com a mão apontada para toda a plateia – o que fazem, com quem andam, o que falam o que comem, quem comem, e por aí vai. Esse gesto – no sentido brechtiano do termo -, que poderia ser considerado perverso no contexto apresentado, foi recebido com muita agressividade. Se pedras houvessem, garanto que seriam atiradas. João tentou acalmar os ânimos. - A verdade sobre os segredos... E olhou para Vitor, como a dizer que ia falar a real, e Vitor aprovou com um sorriso e um gesto de ombros, dando a entender que já havia se divertido bastante às custas daqueles babacas. - A verdade sobre os segredos é que... E os funcionários na plateia já estavam bufando e espumando e babando de curiosidade, como papparazzis com suas câmeras atrás de uma notícia bombástico, tal qual uns urubus no galho seco da árvore esperando algum cliente acabar de morrer. - A verdade sobre os segredos é que... segredos não há. Silêncio! Silêncio total! O silêncio sepulcral, onde podia se ouvir o bater de asas da joaninha, foi abismal. Mas precedeu um balbúrdia catastrófica também abismal, em igual medida, mas sentido oposto, muito mais expansiva, qual uma bomba atômica. Começou a confusão. Por qual motivo, no entanto, é que será difícil detectar. Isso porque pode ter-se chegado à conclusão de que João e Vitor persistiram em manter os segredos e usá-los em momento oportuno em prejuízo do autor. Ou então que os mesmos haviam fabricado um grande teatro de mau gosto e levado todos ao engano, fazendo-os passar por grandes idiotas. A confusão instalou-se generalizadamente. Era soco pra um lado, pontapé pra outro, voadora, golpe de kung fu, mata leão, e até enforcamento, do qual Vitor conseguiu escapar por falta de força física do agressor. A vontade de viver de Vitor era muito maior que a do agressor para fazer morrer. Enfim... Por poucos minutos, aquele auditório virou um campo de guerra, todos contra todos, até que, como num passe de mágicas, ninguém sabe como, a calmaria se fez. As pessoas, com as roupas rasgadas e peles manchadas com hematomas, e supercílios abertos, e lábios sangrando, e etc etc etc, começaram a dispersar, indo cada um prum canto, pra sua sala, pro corredor tomar um café na máquina do café que nem sei mais se estava em manutenção ou não, enfim.

Olhe os muros - tributo à natureza!

Olhe os muros (tributo à natureza) / Wall People (back to nature) Já se ouviu falar por aí do grande alcance que as ditas máximas da sabedoria popular têm sobre o consciente coletivo. E, não por acaso, a potência midiática da larga cobertura de uma construção frasal bem elaborada, disposta, por exemplo, sobre a face cinza enrugada de um muro de concreto, ganha impacto soberano nos interiores de uma displasia fibrosa que protege um cérebro pouco, muito ou médio capacitado para absorver as novidades ao seu redor. A possibilidade que uma dessas máximas quaisquer ganhe uma dimensão urbana se concretiza ao ser estampada sobre um muro. Neste ano de 2014, o pessoal do “olhe os muros”, na esteira da galera do “wall people”, traz à reflexão o tema ‘tributo à natureza’. Pensando pelo lado simbólico da coisa, a própria construção de um muro vai de encontro com a idéia de elogio à natureza. Isso porque, o muro é o representante máximo da quebra dos paradigmas que se pretendem naturais. Deixemos de lado, por ora, para posterior retorno no breve tempo, a questão da natureza. Tratemos, agora, pois, de uma situação mais urgente e que guarda relação direta com a dita questão. Outro dia, num lugar qualquer – e em outros vários dias e vários outros lugares - vi estampada em algum lugar a seguinte máxima de sabedoria popular: VOCÊ, PRÉDIO, TENHO TÉDIO VOCÊ, PRAÇA, ACHO GRAÇA Percebe-se, dessa máxima que nos serve de exemplo perfeito para a demonstração a seguir, que evidencia-se uma contradição no tocante à porção hermenêutica do termo. Ora, é como se se desejasse afirmar a elaboração de um conceito negando-o inteiramente. O muro, tal como o prédio, encontra-se na ordem dos objetos construídos pelo homem, em total e absoluta oposição à natureza da natureza em si. Já a praça traz, colada à sua imagem, a pretensão de desvencilhar-se de uma concretude humana. É claro que, se levarmos ao pé da letra tal consideração, podemos detectar uma enorme falácia sob o ponto de vista da observância urbanística. A praça Roosevelt, em São Paulo, por exemplo, representa o cenário mais abjeto possível – tendo em vita a necessidade de estabelecer-se uma relação direta entre praça e natureza – uma vez que trata-se de uma praça inteira de concreto. Nada mais intrigante. Mas não vamos nos ater aos detalhes. O que nos interessa aqui é fazer um elogio a essa maravilhosa iniciativa que a galera do “wall people” e “olhe os muros” está tomando, oportunidade em que se atinge dois coelhos com uma cajadada só, se me é permitido o uso dessa força de expressão. Em primeiro lugar, abrir um leque de possibilidades para intervenção urbana, artística e social, determinando um novo padrão de ocupação do espaço público e, em segundo lugar, retomar esse assunto que nos é tão caro nos dias de hoje, qual seja, a importância da natureza na vida do cidadão comum megalopolitano e sua influência positiva numa urbanidade menos caótica e mais verde. Vida longa ao projeto “olhe os muros” e seu tributo à natureza. Seu Molina!

No Divã do Palhaço - crítica ao livro de Carlos Biaggioli

“No Divã do Palhaço”, de Carlos Biaggioli – crítica Diante da absurdidade cosmopolivalente do latente vértice capsular e helipsoidal acerca das transformações sócio-políticas presentes na apresentação lúdico-filosofática textual na hermenêutica jactante do estilismo pseudo-blazê de Carlos Biaggiolo – ora representado pela sua figura gêmea alienada e singela, o palhaço Delfino, guru das prosas melopósdramáticas e das falastrices rimáticas e neo rapsódicas das chamadas espetacularizações sublimáticas e catárticas da geologia abstrata da literatice livre docente – observa-se uma clara supervalorização das estruturas castradoras que nos imputa a ordem e o progresso, em sua sociedade anti besteirológica. Na contramão obliterante dessa estapafúrdia e monotônica camada catártica e caótica de Delfino, na condição de arauto das novas possibilidades sistêmicas das opções anímicas e guturais, por vezes irracionais, que se sobrepõe à chatice do cotidiano pré-pára-psicológico, está a figura do clown, ou do palhaço, ou daquele que não se enquadra nos padrões pré-estabelecidos. Em outros termos, vale dizer que o empenho de Delfino em devendar os mistérios da humanidade, por meio das consultas e conselhos parafilosofáticos, traz consigo a questão primordial da humanidade: Quem sou? Ondem estou? Para onde vou? O palhaço responde: Está tudo perdido. Isso de nada serve aos meus propósitos. Nada justifica a cafonice e petulância com que se veste aquele que comanda, ou acha que comanda, ou finge achar que comanda. Na suposição de que os pilares de uma boa educação sustenta a condição potencial da realidade midiática de uma sociedade relativista e reducionista sob o ponto de vista da supercisão superficial de celeumas obstaculares de cunho segregacionista, não se pode deixar de observar, à luz da contradição paradoxal da observância protocolar numerológica, a extrema importância da construção e elaboração didática de um sistema educacional básico para palhaços. Na humilde opinião desse que vos escreve, essa é uma verdadeira possibilidade para a construção de um futuro melhor, botando abaixo todos os idiotas que acham que são palhaços, mas não, são apenas idiotas. Deixemos, pois, claro e evidente: palhaço não é idiota e idiota não é palhaço e vice e versa. E ademais, para além da filosofice possante e arrebatadora contida nesse livro de Carlos Biaggioli, onde a imersão intelectual e lúdica sobrepõe em muito a necessidade de uma leitura fundamental sob o ponto de vista da identidade ética da alma humana palhacística, é preciso, ainda, dizer que “No Divã do Palhaço” é uma leitura bastante proveitosa e divertida e gostosa, que se finda em algumas sentadas. Seu Molina, 10/02/2014

A polícia mais eficiente do mundo!

Recentemente, houve uma competição para ver que país tinha a polícia mais eficiente. Os três finalistas foram a Interpol Britânica, a KGB Russa e a Polícia Militar de São Paulo, representando nosso país democrático, o Brasil. O desafio final que consagraria uma delas ao título de campeã mundial consistia na seguinte tarefa: capturar um urso panda no meio da Floresta Amazônica. A Interpol foi a primeira. Instalou seus GPS´s e hipersatélites, mobilizou mais de 30 homens monitorando os computadores enquanto microrobôs faziam a busca em campo. Após 47 minutos, eles chegaram à conclusão de que não havia ursos panda na Floresta Amazônica. Então foi a vez da KGB Russa. Instalou suas parafernálias e traquitanas para capturar o urso panda. Após ter detido alguns suspeitos para averiguação, constatou, após 1 hora e 4 minutos, que nenhum deles era o tal urso panda. Então foi a vez da Polícia Militar de São Paulo. Com mais de 900 homens, portando bombas de efeito moral e gás pimenta, aos 2 minutos de busca, pegou uma capivara, meteu uma bala de borracha em cada olho, e levou à comissão julgadora e disse: Temos aqui o urso panda. E então a Polícia Militar de São Paulo foi vencedora do título de campeã mundial e recebeu os cumprimentos de seu comandante em chefe, o Governador.

Carta ao Sr. Carlos Biagiolli, um amigo de longa data.

Sr. Carlos Biaggioli, muito me surpreende a sua postura com relação aos meus escritos. Acho que tenho um relação bipolar de sentimentos. Pelo lado negativo, o claro insulto que o sr. dirige aos meus nobres escritos, chamando-os de 'pataquadas'. Devo aqui justificar-me no sentido de alertá-lo, sr. Carlos, e a todo aquele que, por ventura, julgue ou venha a julgar meus escritos como tais, que os meus referidos escritos são elaborados com a mais fina apuração intelectual, imagética e randômica. Tal confluência de qualidades são condição 'sine qua non' para a perfecção poético-literária, que todos buscam mas ninguém alcança, muito menos eu. Digo isso como mea culpa. Sou um fracassado literário. Quisera eu escrever umas bobagens ou outras e vender umas dez ou vinte ou oitenta mil cópias. Agora, pelo lado positivo, devo dizer que muito me surpreende a sua postura, de maneira agradável, por difundir, ainda que aplicada ao caso a psicologia infantil da negação, os meus escritos no meio virtual, que cresce a velocidade galopante ultrassônica. Obrigado, caro amigo.

Elevador de prefeitos!

Cena do cotidiano no planalto central nº 1: Figura descabelada,de bermuda e chinelo entra no elevador panorâmico de um hotel em Brasília, onde estão hospedados vários engravatados, prefeitos de diversas cidades país afora, devidamente identificados com um broche dourado na lapela do paletó. A figura descabelada, de bermuda e chinelo encontra com os prefeitos no elevador e, por 7 andares, têm um diálogo franco e sintético, que logo abaixo está reproduzido. Prefeito (ao descabelado de bermuda e chinelo): Você não é do nosso grupo não, né? O descabelado de bermuda e chinelo responde: Não, eu sou do grupo dos não engravatados. Prefeito: então você deve ser de uma banda de rock. O descabeludo de bermeda e chinalo replica: quase isso. Um outro prefeito treplica: Não acho que uns atores estão gravando alguma coisa aí. O prefeito tetraplica: Mas vocês não são daquele grupo, aquele grupo, aquele... O descabelido de bermada e chinulo quadruplica: O CQC? A porta se abre no térreo e os prefeitos se dispedem: O fulano, já que é mais rico, paga o nosso almoço. E eles se distanciam com sorrisos sinceros do descabelado de bermuda e chinelo, que vai sair por aí, fazer alguma coisa, talvez tocar numa banda de rock, talvez gravar umas ceninhas... qual a diferença?

ENSAIO SOBRE A PACIÊNCIA – INTRÓITO

É preciso muita paciência. Captamos a mensagem. Já é hora. A perna esquerda sobre a direita, num movimento cruzado. Mão direita segurando a cabeça, que cai em contrapeso ao quadril esquerdo. Sono. Caneta bic vermelha na mão esquerda deslizando a ponta e escrevendo palavras à toa...paciência criativa.
Tenho que ganhar dinheiro. Não posso negar o ócio. Um bilhete para Passargada.
Jô, quando jovem, cruzou o rio Jordão de joelhos e, com jocosa jovialidade, foi a Joanópolis.
Essa pequena fábula fabricada sintetiza, à luz dos paradoxos pacientes, a evidência da necessidade de se ter paciência.

45 minutos, uma crítica - espetáculo de caco ciocler

Quarenta minutos. Esses são os únicos minutos, os intermináveis e derradeiros minutos pelos quais se nutre a esperança de acontecer o inacontecível. Quarenta e cinco tediosos e provocadores minutos de revelia a um esquema de exposição absoluta. Quarenta e cinco minutos em que o ator deve entreter o público, pois o público está lá para ser entretido, nada mais. Nada mais ultrajante para um ator do que ser o motivo da risada alheia. De pagar o mico, de bancar o ridículo.
Estou falando do espetáculo de Caco Ciocler, que encerrou sua temporada no Centro Cultural São Paulo. Um espetáculo simples, sem subterfúgios, um espetáculo que busca a essência do ser e estar em cena, fuga centrípeta da representação. Caco assume o risco de não entreter o público, muito embora entretenha-o de maneira sutil e delicada. O limiar entre a metáfora do discurso e o discurso em si caminha numa tênue e frágil linha de navalha. Qualquer inclinação pode colocar tudo a perder. A representação - cujo aliado maior é o nosso próprio ego – é a nossa mais poderosa arquiinimiga. Digo, a dos atores e atrizes. Devo dizer que Caco Ciocler se dá bem no equilibrismo da navalha. Consegue manter o equilíbrio. Escapa da representação. Talvez por isso – e essa é uma opinião pessoal - não empolgue o grande público, que espera ver um show do belo Caco Ciocler, galã, famoso e global ator, e talentoso. Ele realmente é de arrancar suspiros, mas isso não vem ao caso.
Quarenta minutos é um espetáculo desafiador, provocador, constrangedor. Um belíssimo exercício de ator, com sua simplicidade, sinceridade e verdade. Uma ótima dica para quem ainda não viu.

Seu Molina

Diário Baldio, crítica ao espetáculo!

Os factóides e ocorridos cosmonopolitas sobrevoam as camadas de urbanidades flagrantes em sua insegurança propiciada pelo desmembramento ilustre da democracia, como exemplo singelo mas não exaustivo de como lidar com as percepções básicas de civilidade.
Por outro mas convergente vértice, não se pode negar uma gigantesca transferência do foco institucionalista para a beleza de geometrias triangulares refletidas nas máscaras, tão bem construídas lá no Barracão.
O Esinho e o longilíneo Gabriel travestem, ou melhor, transportam, ou ainda, transferem suas figuras e qualidades ao molde corporal proposto, em favor da máscara. A Tiche dirige.
As contemporâneas sugestões para se compor dramaturgia se ambientam numa necessidade de imbuir-se de, incutir a si, preencher-se de muita vontade de entender o que se passa com as pessoas.
A direção é precisa e a presença cênica corporal dos atores mais ainda. O trabalho é belíssimo. Todos eles merecem uma salva de palmas.
‘Diário Baldio’ nasce de uma possibilidade e, acima de tudo, de uma necessidade de investigação do cotidiano, de transformá-lo em cena para, só então, transformá-la, a cena, em texto. Totalmente apropriado pelos atores, os dramaturgismos, em seus diversos níveis, suplantam, extrapolam a divergência neuropsicossomática das máscaras.
Trata-se de uma pesquisa belíssima desenvolvida na rua, em sala de aula, uma pesquisa de linguagem, métodos urbanitários, máscaras, etc.

A última história da turma 59.

‘O grande espetáculo’. Um bom mote para a última história, última expressão da extinta turma 59 da Escola de Arte Dramática. Turma que se desmantela. Turma que se dissolve. Turma que nasce de si mesma e se recria e se transforma e se repensa como coletivo atuante. É uma beleza de se ver. Essa experiência do coletivo, que vem sendo lapidada com muito empenho, se reflete na sombra luminosa de um outro tipo de experiência, estética, poética, sensorial. A turma 59 se vale de todas as suas qualidades para repensar sua própria trajetória existente no cerne da gestação escolar. Tal qual uma Fênix que renasce de suas próprias cinzas, a extinta turma 59 se renova, absorvendo sua vida pretérita dentro da escola em favor de uma longa jornada ao longo de uma estrada infinda, agora como grupo 59. Um coletivo feito por atores, por indivíduos, por seres humanos, que fazem dessa experiência e fizeram, desde o seu início, “um encontro saudável, alegre e feliz de jovens dispostos a viver a experiência da arte com toda a ingenuidade e inablilidade do mundo”. Compartilho aqui uma convergência simpática de opiniões. Creio que essa experiência, a verdadeira busca por preencher-se, em qualquer tempo ou espaço, em qualquer sentido, de energia e de conhecimento e de subjetividade e de humildade, impulsiona o indivíduo para a condição de artista. Por falar nisso, gostaria de tecer uma curta elucubração sobre a figura do velho palhaço e o que ela representa. O velho palhaço, seu fantasma, nos incita a não abandonar nossos anseios, mesmo que o anjo Ariel, o nosso belo e angelical anjo Ariel, esteja avariado e não consiga entregar a mensagem. Os nossos desejos mais sinceros, nossas crenças mais profundas, imergem das profundezas e se traduzem numa consciência muito coesa e transparente. Então, a comunicação será completa, eficiente. E isso é evidente a olhos espectadores pois, entre os olhos jogadores, a cumplicidade, o equilíbrio, a escuta estão presentes e plenamente preenchidas a todo o instante.
Um duplo discurso. Um discurso metafórico e metalingüístico. Quando se fala na trama teatral, da dramaturgia, no discurso do âmbito narrativo ficcional, na verdade se fala da própria condição do indivíduo pertencente ao grupo. Os paralelos estabelecidos entre o que se conta e o que se vive nos aparecem à vista com muita clareza e beleza. Aqueles que minimamente acompanharam a trajetória, as conquistas, as dificuldades dessa turma - o resultado estético poético do espetáculo, A última história, com a turma 59 da EAD, concepção de Tiche Viana e Marcelo Onofri – são embebidos num impactante lugar de acolhimento e singeleza. Seus efeitos são praticamente bastante reveladores da inabilidade com que o homem consegue controlar suas emoções, deixando de lado a luta do intelecto para encontrar sentido. E não só. Provoca um relaxamento buco maxilar que impele o desrosqueamento de não sei lá que ossos e a consequente queda do queixo, barbado ou não.
Vale dizer, com muita sinceridade - e também para acabarmos com isso que as palavras já vão longas – que, realmente, trata-se de um belíssimo espetáculo, emocionante, impactante, cheio de fibra e poesia. Desde a sua concepção, escolhas temáticas, abordagens estéticas, relações verdadeiramente autorais de cada um dos indivíduos do grupo, a exposição plena e severa,e tudo contribui para o sucesso que é A última história, espetáculo de formatura da turma 59 da EAD, já extinta e agora o grupo 59 recebe esse coletivo de artistas numa convergência de energias muito positivas e vibrantes. Faço votos que o grupo 59 encontre em seu mais novo caminho muita luz, amor, paz, paciência, perseverança, alegria e felicidade. E, desde já, me coloco, com muito orgulho e prazer, como parceiro investigativo nessa nova trajetória, na qual exercitaremos a nossa capacidade de sonhar.
Parabéns, Grupo 59.

Seu Molina

PANELA DE EXPRESSÃO ou a liberdade sincrônica

PANELA DE EXPRESSÃO ou a liberdade sincrônica.
Radioativos planejadores urbanos suscitam a capacidade estratosférica de estratificar da pedra fundamental os plânctons inflamáveis da abstração geométrica.
Desde que a caneta esferográfica derrubou rubra tinta ordenada por sobre céu azul nublado, transpuseram-se, automaticamente, em contrapartida à modalidade primordial, referências subordinadas à célebre xenofobia bélica da sociedade do país do futuro.
Os tesouros vislumbrados nas Ilhas Molucas, por exemplo, detém, supressivamente, as explorações pictóricas da essência satisfatória, no plano da alfarrábia alfabetização do algoz de Alberto Álvaro, ou de Al Capone.
Ridiculariza-se, no íntimo cerebral, a pulsação abrupta de terminações nervosas de oxigênio, sob as quais irradiam iluminadas cidades de luz culturalizadas.
E quando se fala na questão dos Habsburgos liliputianos, qual seria o resultado dessa mistura como síntese congruente? Qual teorema abominável, incalculável, inimaginável, insuperável.
Que horas são?
O xarope expectorante tem sua funcionalidade cadavérica nas medidas e proporções exatas da premissa básica que norteia a reverência arlequina do brasileiro ao monarca dom João sexto, por ocasião da vinda da família real lusitana ao Brasil.
Funcionalidade esta que permeia os códigos da navegação aérea em sua torre de comando.
A emblemática metáfora que lhe dá título justifica-se precisamente na dicotômica esquematização de egóicos suicídios planejados em suas custódias assintomáticas da síndrome do pânico. Se, por um lado, panela de pressão, de outro, panela de expressão. Ou então, para dar cabo do colóquio, liberdade sincrônica, por razões óbvias.

ENSAIO SOBRE A AUTO COMPENSAÇÃO DO UNIVERSO E A AÇÃO DO HOMEM

ENSAIO SOBRE A AUTO COMPENSAÇÃO DO UNIVERSO E A AÇÃO DO HOMEM

Tudo que sobe, há de descer. A física explica. Energia se renova e transforma. Se um pombo cruza o seu caminho, que há de ser? Um burro ou outro que não percebe? Qual ladeira trans americana universal. Falência múltipla dos auto controles da vitalidade cíclica. Validade virtual das duplicidades zoomórficas. Na camada pré-sal, tudo pode acontecer. A que custo? Natureza destroçada por palindrômicos maníacos e incongruentes. Radicalismos à parte, botemos na balança a conclusão ululante sobre o episódio noticiado dias atrás: nunca tantas baleias encalharam como nos dias de hoje em dia. Um dia a natureza selvagem será domesticada e encoleirada, autocompensada com artifícios sintéticos...esse assunto me irrita profundamente. A saída da caverna milenar é iluminada por uma placa luminosa ‘EXIT’. Como pode?

'Preto no Branco"

Preto no Branco
Esse pequeno conjunto de palavras dispostas nessa exata ordem sempre suscitou uma série de possibilidades interpretativas, nos mais variados sentidos. Quando uma pessoa tem absoluta certeza de algo, ela diz: - isso é preto no branco. E quando um retirante nordestino come feijão com arroz, é preto no branco. Claro, se supormos que o feijão está por cima do arroz e também se considerarmos que o feijão é preto e não carioquinha ou até mesmo feijão branco. Agora, se o retirante comer feijão e arroz com farinha, temos aí uma variação sobre o mesmo tema: branco no preto no branco. Essa variação também virá à tona numa outra possibilidade que logo mais se mostrará. Por ora, trata-se de uma variação da ordem dos gêneros alimentícios e proteicos. A farinhna, realmente, traz um sabor todo especial ao arroz e feijão, e se vier com uma pimentinha, então...hummm! Mas o que se denota da coloquialidade popular – é preto no branco – é uma translucida transparência transfigurativa da transcedentalidade transferencial. Ora, fugindo da categoria alimentícia destinada à verbalidade coloquial, podemos dizer que a expressão preto no branco também pode explicitar uma relação amorosa. O preto no branco. Uma relação interracial, homossexual. Se considerarmos, por outro lado, a ausência do caráter gramatical que configura o grau do sujeito, a relação pode ser heterossexual também. Isso porque quando se fala preto, entende-se preto ou preta. Por sua vez, quando mencionarmos branco, entender-se-á branco ou branca. Dessa variação terminológica, sem alguma preocupação com a conjugação gramatical, temos várias opções de relações amorosas. Preto com branco, preto com branca, preta com branco, preta com branca e vice e versa. Uma mistureba daquelas. Lembram-se que falamos, lá atrás, de uma possibilidade de variação: branco no preto no branco? É para os casos de relação a três, ou mais conhecido no francês como menage a trois. E porque não dizer preta com preto ou branca com branco e vice e versa? Mas aí fugiríamos radicalmente do tema desta crônica. Estamos aqui a falar sobre as variações da expressão preto no branco e de nada mais. Outra possibilidade de variação da expressão é exatamente daquela que viemos falar aqui. Quando um preto sai na porrada com um branco e eles se atracam e saem rolando pelo chão, um batendo no outro e, no momento da fotografia, o preto está pressionando o branco contra o chão, asfixiando-o? É preto no branco. Estou falando nisso porque li, dias desses, no jornal, que, na África do Sul, um preto matou um branco porque esse branco tinha criado um grupo responsável por matar os pretos... Quem já conhece essa história? Exatamente. A África do Sul não está livre da segregação racial. Muito pelo contrário. Será que a copa do mundo de futebol está ameaçada? Que será do Robinho? Ou do Ronaldinho gaúcho? Ou do Michel Rooney, aquele branquelo da seleção inglesa? E nem se pode lançar à mão aquele famoso jargão popular: ‘eles que são brancos que se entendam’ ou vice e versa. Para o Brasil ganhar a copa, o Kaká tem que se entender com o Robinho e assim por diante. Abaixo a segregação racial.
Seu Molina

Tebas - uma crítica!

Imagine uma tragédia. Uma tragédia grega. Imagine uma tragédia grega. Agora, imagine duas tragédias reunidas. Gregas. E se se ouvisse falar em três tragédias gregas juntas, o que se diria? Inexplicavelmente ilógico, irracional, impensável. E quatro tragédias gregas? Quão gregas? Quão trágicas? Pois é. Inacreditável. Um força hercúlea, de apropriação dramatúrgica, de síntese, de bom senso. Foi o que fez o Luís Mármora com a galera da Escola de Arte Dramática da turma 60. E a Lucienne Guedes.
Uma reunião de seis tragédias gregas, adaptadas em dramaturgia palatável para os padrões absorventes da contemporaneidade moderna, traz à tona, no seu conceito menos mítico, intrínseco às relações de razoabilidade sensível da família real em sua conexão direta com a malha divina, o interesse mais puro no sentido catártico da palavra, embora de catártico tal palavra não se imbua.
Mas voltemos a Tebas, onde se passa a trágica narrativa na qual se perdem umas tantas vidas, outras tantas esperanças, alguns anseios, dois olhos, os de Édipo, para ficar só no rol exemplificativo básico, cujo cerne motivacional foi o ápice da transmutação parapsicológica da psicopatologia edipiana, quase tão bem explicada pela funcionalidade psicoterapêutica de Freud, onde o filho come a mãe e mata o pai. Numa sociedade atual, até que soaria tranqüilo. Vide os noticiários sensacionalistas do Datena, por exemplo. Mas, no âmbito da estrutura mitológica do herói, a fúria dos deuses é implacável. Édipo será condenado à pior das prisões. Sem celular nem advogado.
Uma encenação enxuta, objetiva, simpática. Com atores cenicamente fortes. Um bom espetáculo.

A Vida é Sonho - uma crítica!

Um dia você acorda e vira um príncipe.
Dado pela particular expressão, conhecida dos vários contos infantis, poder-se-ia imaginar estar-se falando de alguma história qualquer em que o sapo vira príncipe. Não. Por nenhum momento pode-se dizer que tal expressão vem de algum desses contos pra criança dormir. Negativo. De infantil, essa história não tem nada. Muito pelo contrário. Dir-se-ia um mítico mistério que assombra o PPP (Príncipe Prisioneiro da Polônia). É uma envolvente história que mescla o sonho e a realidade, a realidade e a ilusão, a ilusão e o sonho, que é a vida, e a vida é sonho.
Chegamos ao ponto. A Vida é Sonho. Texto de Calderon de La Barca, com direção da Isabel Setti com os meninos e meninas do segundo ano da Escola de Arte Dramática.
Um exercício cênico de bastante força e potência, no qual a palavra ganha sua exata dimensão através das faringes laringes gargantas lábios bocas dentes língua dos atores. A força motriz da cundaline se faz presente na presença corporal trabalhada pelo queridíssimo Fabiano Benigno.
Lindas canções. Belíssima divisão de vozes. Pleno preenchimento sonoro da caixa acústica. Certeiras imagenssonoras.
Bonito exercício. Forte. Preenchido. Parabéns.

Diário Baldio - crítica!

Os factóides e ocorridos cosmonopolitas sobrevoam as camadas de urbanidades flagrantes em sua insegurança propiciada pelo desmembramento ilustre da democracia, como exemplo singelo mas não exaustivo de como lidar com as percepções básicas de civilidade.
Por outro mas convergente vértice, não se pode negar uma gigantesca transferência do foco institucionalista para a beleza de geometrias triangulares refletidas nas máscaras, tão bem construídas lá no Barracão.
O Esinho e o longilíneo Gabriel travestem, ou melhor, transportam, ou ainda, transferem suas figuras e qualidades ao molde corporal proposto, em favor da máscara. A Tiche dirige.
As contemporâneas sugestões para se compor dramaturgia se ambientam numa necessidade de imbuir-se de, incutir a si, preencher-se de muita vontade de entender o que se passa com as pessoas.
A direção é precisa e a presença cênica corporal dos atores mais ainda. O trabalho é belíssimo. Todos eles merecem uma salva de palmas.
‘Diário Baldio’ nasce de uma possibilidade e, acima de tudo, de uma necessidade de investigação do cotidiano, de transformá-lo em cena para, só então, transformá-la, a cena, em texto. Totalmente apropriado pelos atores, os dramaturgismos, em seus diversos níveis, suplantam, extrapolam a divergência neuropsicossomática das máscaras.
Trata-se de uma pesquisa belíssima desenvolvida na rua, em sala de aula, uma pesquisa de linguagem, métodos urbanitários, máscaras, etc.

POLICARPO QUARESMA - crítica

POLICARPO QUARESMA – crítica
A partir da obra literária de Lima Barreto, Antunes Filho coloca em cena a realidade com suas máscaras desveladas. A ironia presente na trilha sonora, por exemplo, nos leva a uma sensação de delírio plena, permeada pelo ufanismo engraçadíssimo de Policarpo Quaresma, sua figura principal. O excêntrico e protuberante Policarpo, vivido por Lee Thalor, nos faz imaginar no mínimo bizarra toda a estrutura político-social que o envolve. Os devidos paralelos e suaves comparações nos remete a uma dimensão analítica, conquanto as diferenças se desdobram na estética extremamente teatral, dirigida por Antunes. Os movimentos coreográficos bem finos, ordenados e sincronizados pelo grupo de atores jovens do Macunaíma, são bem razoáveis. Talvez, contudo, poder-se-ia considerar a possibilidade de abrir mão de poucos momentos repetitivos, excessivos. Um belo espetáculo. Bela atuação de Lee Thalor. Em cartaz no SESC Consolação.
Seu Molina

FATZERBRAS – um doideira performática pós dramática velociráptica

Brasileiros e Alemães erradicados na multi simultânea realidade caótica. Ainda mais quando se fala no Bertolt Brecht. Do texto inacabado de sua autoria, “O declínio do egoísta Johann Fatzer”, surge uma apoteótica demonstração das rupturas desfragmentadas de sentido linear. O caráter performático das pedras fundamentais nos trazem à luz uma gama perpendicular de sentido - considerando-se como elementar o próprio distanciamento brechtiano – sedimentado nas breves e impactantes cores e formas das imagens de vídeo-clipe., embora de tal recurso não se utilizaram para a encenação, que tem residência temporária no SESC Pompéia . As multi simultâneas imagens bombardeiam de potencialidade a própria estrutura do espaço, principalmente. A síntese do texto, que de inacabado, possibilitou uma construção dramatúrgica e interpretativa. É chocante. E radical.
Seu Molina

RODÍZIO, EM POUCAS PALAVRAS!

RODÍZIO

Rodízio de carne. Rodízio de sushi. Rodízio de carros. Essa questão do horário é algo que...
Uma perturbação culmina na urbanização.
Precisamente, quando as cinco badaladas vespertinas badalarem no coração da terra da garoa, a xenoplacafobia transpirará por todos os poros, inebriando, qual xarope expectorante pulverizado, as ojerizas que os robôs de capacetes amarelinhos infeccionariam, não fosse a metáfora sustentável.
A saída de emergência para cruzar o rio a tempo antes que a câmera flagre o seu número. Ou o robô amarelinho que tem um apito e uma caneta. Ou o GPS. Controle total. Tensão absoluta. Crise. Faltam dez minutos para as cinco badaladas soarem e a distância a ser percorrida é longa. Uma maré de luzes de freios ilumina o horizonte vermelho. Pé no acelerador. Vamos lá. Sai da frente, ô barbeiro!
E faltam sete minutos para a síncope numerológica voltar-se contra si num movimento de auto-acusação, qual uma força magnética entre a lente e a placa.
O semáforo ao longe fica vermelho.
Falta um minuto. Pé no acelerador, vamos lá, sai da frente, ô barbeiro. O ponteiro aproxima-se do marcador imponente ao norte. E o ponteiro, num movimento brusco e repetitivo, vai cortando o vento e fazendo vrum, vrum, vrum, ultrapassa a barreira limítrofe entre o bom senso e a intolerância e dispara o alarme sensorial da perturbação de que falava há pouco.
Cinco badaladas ecoam. O olho procura o sentido. A catarse se inverte numa manifestação de quase pânico, de tal forma que nem se percebera que já cruzara o rio.

ASSASSINATO DO ANÃO, DE PLÍNIO MARCOS - UMA CRÍTICA

A radicalidade imanente do texto de Plínio Marcos, a força de suas relações entre as personas complexas, as potenciais e inúmeras camadas a serem exploradas, viabiliza, por um lado, um campo exploratório infindável de multi tentaculares possibilidades frente ao texto.Todavia, por outro lado, ainda que pese, na maioria dos casos, uma tendência de superação [embora aqui se trate de outra coisa] das dificuldades resultantes deste confronto com a dramaturgia de Plínio Marcos, seria muito arriscado negligenciar todas estas possibilidades, quer sob o ponto de vista da pesquisa, quer sob a visão concepcional da questão.
Há, contudo, ainda que se coloque em xeque, uma tentativa de superar as dificuldades, suplantando-as por uma via pré-programada de defesa, mas com alegria e verdade, na maioria das vezes.
A esse respeito, vale lembrar do risco que se corre ao encenar um texto de Plínio Marcos, no caso o “Assassinato do anão do caralho grande”. Trata-se de um texto que exige muita maturidade. Maturidade para compreensão do que se diz, para reflexão e análise profunda das várias camadas que o texto atinge. Não obstante, é possível vislumbrar apontamentos muito interessantes, tais como figuras extremamente delineadas, outras tantas configurações corais bastante consistentes, ou ainda algumas conexões entre atores bem fortes. Porém, repito, tudo isso está rarefeito de seu sentido, pois não se o encontrou. É necessário aprofundar nas camadas de compreensão do texto. Não se pode dizer interessante, nos dias de hoje, uma cortina que é apenas uma cortina ou um carretel de madeira gigante que é apenas um carretel de madeira gigante.
Por fim, gostaria de deixar aqui registrado que os atores da turma 60 da EAD são uns lindinhos. Adoro eles todos!

Seu Molina!
(espetáculo da turma 60 da Escola de Arte Dramática - julho de 2010)