Carta ao Sr. Carlos Biagiolli, um amigo de longa data.

Sr. Carlos Biaggioli, muito me surpreende a sua postura com relação aos meus escritos. Acho que tenho um relação bipolar de sentimentos. Pelo lado negativo, o claro insulto que o sr. dirige aos meus nobres escritos, chamando-os de 'pataquadas'. Devo aqui justificar-me no sentido de alertá-lo, sr. Carlos, e a todo aquele que, por ventura, julgue ou venha a julgar meus escritos como tais, que os meus referidos escritos são elaborados com a mais fina apuração intelectual, imagética e randômica. Tal confluência de qualidades são condição 'sine qua non' para a perfecção poético-literária, que todos buscam mas ninguém alcança, muito menos eu. Digo isso como mea culpa. Sou um fracassado literário. Quisera eu escrever umas bobagens ou outras e vender umas dez ou vinte ou oitenta mil cópias. Agora, pelo lado positivo, devo dizer que muito me surpreende a sua postura, de maneira agradável, por difundir, ainda que aplicada ao caso a psicologia infantil da negação, os meus escritos no meio virtual, que cresce a velocidade galopante ultrassônica. Obrigado, caro amigo.

Elevador de prefeitos!

Cena do cotidiano no planalto central nº 1: Figura descabelada,de bermuda e chinelo entra no elevador panorâmico de um hotel em Brasília, onde estão hospedados vários engravatados, prefeitos de diversas cidades país afora, devidamente identificados com um broche dourado na lapela do paletó. A figura descabelada, de bermuda e chinelo encontra com os prefeitos no elevador e, por 7 andares, têm um diálogo franco e sintético, que logo abaixo está reproduzido. Prefeito (ao descabelado de bermuda e chinelo): Você não é do nosso grupo não, né? O descabelado de bermuda e chinelo responde: Não, eu sou do grupo dos não engravatados. Prefeito: então você deve ser de uma banda de rock. O descabeludo de bermeda e chinalo replica: quase isso. Um outro prefeito treplica: Não acho que uns atores estão gravando alguma coisa aí. O prefeito tetraplica: Mas vocês não são daquele grupo, aquele grupo, aquele... O descabelido de bermada e chinulo quadruplica: O CQC? A porta se abre no térreo e os prefeitos se dispedem: O fulano, já que é mais rico, paga o nosso almoço. E eles se distanciam com sorrisos sinceros do descabelado de bermuda e chinelo, que vai sair por aí, fazer alguma coisa, talvez tocar numa banda de rock, talvez gravar umas ceninhas... qual a diferença?

ENSAIO SOBRE A PACIÊNCIA – INTRÓITO

É preciso muita paciência. Captamos a mensagem. Já é hora. A perna esquerda sobre a direita, num movimento cruzado. Mão direita segurando a cabeça, que cai em contrapeso ao quadril esquerdo. Sono. Caneta bic vermelha na mão esquerda deslizando a ponta e escrevendo palavras à toa...paciência criativa.
Tenho que ganhar dinheiro. Não posso negar o ócio. Um bilhete para Passargada.
Jô, quando jovem, cruzou o rio Jordão de joelhos e, com jocosa jovialidade, foi a Joanópolis.
Essa pequena fábula fabricada sintetiza, à luz dos paradoxos pacientes, a evidência da necessidade de se ter paciência.

45 minutos, uma crítica - espetáculo de caco ciocler

Quarenta minutos. Esses são os únicos minutos, os intermináveis e derradeiros minutos pelos quais se nutre a esperança de acontecer o inacontecível. Quarenta e cinco tediosos e provocadores minutos de revelia a um esquema de exposição absoluta. Quarenta e cinco minutos em que o ator deve entreter o público, pois o público está lá para ser entretido, nada mais. Nada mais ultrajante para um ator do que ser o motivo da risada alheia. De pagar o mico, de bancar o ridículo.
Estou falando do espetáculo de Caco Ciocler, que encerrou sua temporada no Centro Cultural São Paulo. Um espetáculo simples, sem subterfúgios, um espetáculo que busca a essência do ser e estar em cena, fuga centrípeta da representação. Caco assume o risco de não entreter o público, muito embora entretenha-o de maneira sutil e delicada. O limiar entre a metáfora do discurso e o discurso em si caminha numa tênue e frágil linha de navalha. Qualquer inclinação pode colocar tudo a perder. A representação - cujo aliado maior é o nosso próprio ego – é a nossa mais poderosa arquiinimiga. Digo, a dos atores e atrizes. Devo dizer que Caco Ciocler se dá bem no equilibrismo da navalha. Consegue manter o equilíbrio. Escapa da representação. Talvez por isso – e essa é uma opinião pessoal - não empolgue o grande público, que espera ver um show do belo Caco Ciocler, galã, famoso e global ator, e talentoso. Ele realmente é de arrancar suspiros, mas isso não vem ao caso.
Quarenta minutos é um espetáculo desafiador, provocador, constrangedor. Um belíssimo exercício de ator, com sua simplicidade, sinceridade e verdade. Uma ótima dica para quem ainda não viu.

Seu Molina

Diário Baldio, crítica ao espetáculo!

Os factóides e ocorridos cosmonopolitas sobrevoam as camadas de urbanidades flagrantes em sua insegurança propiciada pelo desmembramento ilustre da democracia, como exemplo singelo mas não exaustivo de como lidar com as percepções básicas de civilidade.
Por outro mas convergente vértice, não se pode negar uma gigantesca transferência do foco institucionalista para a beleza de geometrias triangulares refletidas nas máscaras, tão bem construídas lá no Barracão.
O Esinho e o longilíneo Gabriel travestem, ou melhor, transportam, ou ainda, transferem suas figuras e qualidades ao molde corporal proposto, em favor da máscara. A Tiche dirige.
As contemporâneas sugestões para se compor dramaturgia se ambientam numa necessidade de imbuir-se de, incutir a si, preencher-se de muita vontade de entender o que se passa com as pessoas.
A direção é precisa e a presença cênica corporal dos atores mais ainda. O trabalho é belíssimo. Todos eles merecem uma salva de palmas.
‘Diário Baldio’ nasce de uma possibilidade e, acima de tudo, de uma necessidade de investigação do cotidiano, de transformá-lo em cena para, só então, transformá-la, a cena, em texto. Totalmente apropriado pelos atores, os dramaturgismos, em seus diversos níveis, suplantam, extrapolam a divergência neuropsicossomática das máscaras.
Trata-se de uma pesquisa belíssima desenvolvida na rua, em sala de aula, uma pesquisa de linguagem, métodos urbanitários, máscaras, etc.

A última história da turma 59.

‘O grande espetáculo’. Um bom mote para a última história, última expressão da extinta turma 59 da Escola de Arte Dramática. Turma que se desmantela. Turma que se dissolve. Turma que nasce de si mesma e se recria e se transforma e se repensa como coletivo atuante. É uma beleza de se ver. Essa experiência do coletivo, que vem sendo lapidada com muito empenho, se reflete na sombra luminosa de um outro tipo de experiência, estética, poética, sensorial. A turma 59 se vale de todas as suas qualidades para repensar sua própria trajetória existente no cerne da gestação escolar. Tal qual uma Fênix que renasce de suas próprias cinzas, a extinta turma 59 se renova, absorvendo sua vida pretérita dentro da escola em favor de uma longa jornada ao longo de uma estrada infinda, agora como grupo 59. Um coletivo feito por atores, por indivíduos, por seres humanos, que fazem dessa experiência e fizeram, desde o seu início, “um encontro saudável, alegre e feliz de jovens dispostos a viver a experiência da arte com toda a ingenuidade e inablilidade do mundo”. Compartilho aqui uma convergência simpática de opiniões. Creio que essa experiência, a verdadeira busca por preencher-se, em qualquer tempo ou espaço, em qualquer sentido, de energia e de conhecimento e de subjetividade e de humildade, impulsiona o indivíduo para a condição de artista. Por falar nisso, gostaria de tecer uma curta elucubração sobre a figura do velho palhaço e o que ela representa. O velho palhaço, seu fantasma, nos incita a não abandonar nossos anseios, mesmo que o anjo Ariel, o nosso belo e angelical anjo Ariel, esteja avariado e não consiga entregar a mensagem. Os nossos desejos mais sinceros, nossas crenças mais profundas, imergem das profundezas e se traduzem numa consciência muito coesa e transparente. Então, a comunicação será completa, eficiente. E isso é evidente a olhos espectadores pois, entre os olhos jogadores, a cumplicidade, o equilíbrio, a escuta estão presentes e plenamente preenchidas a todo o instante.
Um duplo discurso. Um discurso metafórico e metalingüístico. Quando se fala na trama teatral, da dramaturgia, no discurso do âmbito narrativo ficcional, na verdade se fala da própria condição do indivíduo pertencente ao grupo. Os paralelos estabelecidos entre o que se conta e o que se vive nos aparecem à vista com muita clareza e beleza. Aqueles que minimamente acompanharam a trajetória, as conquistas, as dificuldades dessa turma - o resultado estético poético do espetáculo, A última história, com a turma 59 da EAD, concepção de Tiche Viana e Marcelo Onofri – são embebidos num impactante lugar de acolhimento e singeleza. Seus efeitos são praticamente bastante reveladores da inabilidade com que o homem consegue controlar suas emoções, deixando de lado a luta do intelecto para encontrar sentido. E não só. Provoca um relaxamento buco maxilar que impele o desrosqueamento de não sei lá que ossos e a consequente queda do queixo, barbado ou não.
Vale dizer, com muita sinceridade - e também para acabarmos com isso que as palavras já vão longas – que, realmente, trata-se de um belíssimo espetáculo, emocionante, impactante, cheio de fibra e poesia. Desde a sua concepção, escolhas temáticas, abordagens estéticas, relações verdadeiramente autorais de cada um dos indivíduos do grupo, a exposição plena e severa,e tudo contribui para o sucesso que é A última história, espetáculo de formatura da turma 59 da EAD, já extinta e agora o grupo 59 recebe esse coletivo de artistas numa convergência de energias muito positivas e vibrantes. Faço votos que o grupo 59 encontre em seu mais novo caminho muita luz, amor, paz, paciência, perseverança, alegria e felicidade. E, desde já, me coloco, com muito orgulho e prazer, como parceiro investigativo nessa nova trajetória, na qual exercitaremos a nossa capacidade de sonhar.
Parabéns, Grupo 59.

Seu Molina

PANELA DE EXPRESSÃO ou a liberdade sincrônica

PANELA DE EXPRESSÃO ou a liberdade sincrônica.
Radioativos planejadores urbanos suscitam a capacidade estratosférica de estratificar da pedra fundamental os plânctons inflamáveis da abstração geométrica.
Desde que a caneta esferográfica derrubou rubra tinta ordenada por sobre céu azul nublado, transpuseram-se, automaticamente, em contrapartida à modalidade primordial, referências subordinadas à célebre xenofobia bélica da sociedade do país do futuro.
Os tesouros vislumbrados nas Ilhas Molucas, por exemplo, detém, supressivamente, as explorações pictóricas da essência satisfatória, no plano da alfarrábia alfabetização do algoz de Alberto Álvaro, ou de Al Capone.
Ridiculariza-se, no íntimo cerebral, a pulsação abrupta de terminações nervosas de oxigênio, sob as quais irradiam iluminadas cidades de luz culturalizadas.
E quando se fala na questão dos Habsburgos liliputianos, qual seria o resultado dessa mistura como síntese congruente? Qual teorema abominável, incalculável, inimaginável, insuperável.
Que horas são?
O xarope expectorante tem sua funcionalidade cadavérica nas medidas e proporções exatas da premissa básica que norteia a reverência arlequina do brasileiro ao monarca dom João sexto, por ocasião da vinda da família real lusitana ao Brasil.
Funcionalidade esta que permeia os códigos da navegação aérea em sua torre de comando.
A emblemática metáfora que lhe dá título justifica-se precisamente na dicotômica esquematização de egóicos suicídios planejados em suas custódias assintomáticas da síndrome do pânico. Se, por um lado, panela de pressão, de outro, panela de expressão. Ou então, para dar cabo do colóquio, liberdade sincrônica, por razões óbvias.

ENSAIO SOBRE A AUTO COMPENSAÇÃO DO UNIVERSO E A AÇÃO DO HOMEM

ENSAIO SOBRE A AUTO COMPENSAÇÃO DO UNIVERSO E A AÇÃO DO HOMEM

Tudo que sobe, há de descer. A física explica. Energia se renova e transforma. Se um pombo cruza o seu caminho, que há de ser? Um burro ou outro que não percebe? Qual ladeira trans americana universal. Falência múltipla dos auto controles da vitalidade cíclica. Validade virtual das duplicidades zoomórficas. Na camada pré-sal, tudo pode acontecer. A que custo? Natureza destroçada por palindrômicos maníacos e incongruentes. Radicalismos à parte, botemos na balança a conclusão ululante sobre o episódio noticiado dias atrás: nunca tantas baleias encalharam como nos dias de hoje em dia. Um dia a natureza selvagem será domesticada e encoleirada, autocompensada com artifícios sintéticos...esse assunto me irrita profundamente. A saída da caverna milenar é iluminada por uma placa luminosa ‘EXIT’. Como pode?

'Preto no Branco"

Preto no Branco
Esse pequeno conjunto de palavras dispostas nessa exata ordem sempre suscitou uma série de possibilidades interpretativas, nos mais variados sentidos. Quando uma pessoa tem absoluta certeza de algo, ela diz: - isso é preto no branco. E quando um retirante nordestino come feijão com arroz, é preto no branco. Claro, se supormos que o feijão está por cima do arroz e também se considerarmos que o feijão é preto e não carioquinha ou até mesmo feijão branco. Agora, se o retirante comer feijão e arroz com farinha, temos aí uma variação sobre o mesmo tema: branco no preto no branco. Essa variação também virá à tona numa outra possibilidade que logo mais se mostrará. Por ora, trata-se de uma variação da ordem dos gêneros alimentícios e proteicos. A farinhna, realmente, traz um sabor todo especial ao arroz e feijão, e se vier com uma pimentinha, então...hummm! Mas o que se denota da coloquialidade popular – é preto no branco – é uma translucida transparência transfigurativa da transcedentalidade transferencial. Ora, fugindo da categoria alimentícia destinada à verbalidade coloquial, podemos dizer que a expressão preto no branco também pode explicitar uma relação amorosa. O preto no branco. Uma relação interracial, homossexual. Se considerarmos, por outro lado, a ausência do caráter gramatical que configura o grau do sujeito, a relação pode ser heterossexual também. Isso porque quando se fala preto, entende-se preto ou preta. Por sua vez, quando mencionarmos branco, entender-se-á branco ou branca. Dessa variação terminológica, sem alguma preocupação com a conjugação gramatical, temos várias opções de relações amorosas. Preto com branco, preto com branca, preta com branco, preta com branca e vice e versa. Uma mistureba daquelas. Lembram-se que falamos, lá atrás, de uma possibilidade de variação: branco no preto no branco? É para os casos de relação a três, ou mais conhecido no francês como menage a trois. E porque não dizer preta com preto ou branca com branco e vice e versa? Mas aí fugiríamos radicalmente do tema desta crônica. Estamos aqui a falar sobre as variações da expressão preto no branco e de nada mais. Outra possibilidade de variação da expressão é exatamente daquela que viemos falar aqui. Quando um preto sai na porrada com um branco e eles se atracam e saem rolando pelo chão, um batendo no outro e, no momento da fotografia, o preto está pressionando o branco contra o chão, asfixiando-o? É preto no branco. Estou falando nisso porque li, dias desses, no jornal, que, na África do Sul, um preto matou um branco porque esse branco tinha criado um grupo responsável por matar os pretos... Quem já conhece essa história? Exatamente. A África do Sul não está livre da segregação racial. Muito pelo contrário. Será que a copa do mundo de futebol está ameaçada? Que será do Robinho? Ou do Ronaldinho gaúcho? Ou do Michel Rooney, aquele branquelo da seleção inglesa? E nem se pode lançar à mão aquele famoso jargão popular: ‘eles que são brancos que se entendam’ ou vice e versa. Para o Brasil ganhar a copa, o Kaká tem que se entender com o Robinho e assim por diante. Abaixo a segregação racial.
Seu Molina

Tebas - uma crítica!

Imagine uma tragédia. Uma tragédia grega. Imagine uma tragédia grega. Agora, imagine duas tragédias reunidas. Gregas. E se se ouvisse falar em três tragédias gregas juntas, o que se diria? Inexplicavelmente ilógico, irracional, impensável. E quatro tragédias gregas? Quão gregas? Quão trágicas? Pois é. Inacreditável. Um força hercúlea, de apropriação dramatúrgica, de síntese, de bom senso. Foi o que fez o Luís Mármora com a galera da Escola de Arte Dramática da turma 60. E a Lucienne Guedes.
Uma reunião de seis tragédias gregas, adaptadas em dramaturgia palatável para os padrões absorventes da contemporaneidade moderna, traz à tona, no seu conceito menos mítico, intrínseco às relações de razoabilidade sensível da família real em sua conexão direta com a malha divina, o interesse mais puro no sentido catártico da palavra, embora de catártico tal palavra não se imbua.
Mas voltemos a Tebas, onde se passa a trágica narrativa na qual se perdem umas tantas vidas, outras tantas esperanças, alguns anseios, dois olhos, os de Édipo, para ficar só no rol exemplificativo básico, cujo cerne motivacional foi o ápice da transmutação parapsicológica da psicopatologia edipiana, quase tão bem explicada pela funcionalidade psicoterapêutica de Freud, onde o filho come a mãe e mata o pai. Numa sociedade atual, até que soaria tranqüilo. Vide os noticiários sensacionalistas do Datena, por exemplo. Mas, no âmbito da estrutura mitológica do herói, a fúria dos deuses é implacável. Édipo será condenado à pior das prisões. Sem celular nem advogado.
Uma encenação enxuta, objetiva, simpática. Com atores cenicamente fortes. Um bom espetáculo.

A Vida é Sonho - uma crítica!

Um dia você acorda e vira um príncipe.
Dado pela particular expressão, conhecida dos vários contos infantis, poder-se-ia imaginar estar-se falando de alguma história qualquer em que o sapo vira príncipe. Não. Por nenhum momento pode-se dizer que tal expressão vem de algum desses contos pra criança dormir. Negativo. De infantil, essa história não tem nada. Muito pelo contrário. Dir-se-ia um mítico mistério que assombra o PPP (Príncipe Prisioneiro da Polônia). É uma envolvente história que mescla o sonho e a realidade, a realidade e a ilusão, a ilusão e o sonho, que é a vida, e a vida é sonho.
Chegamos ao ponto. A Vida é Sonho. Texto de Calderon de La Barca, com direção da Isabel Setti com os meninos e meninas do segundo ano da Escola de Arte Dramática.
Um exercício cênico de bastante força e potência, no qual a palavra ganha sua exata dimensão através das faringes laringes gargantas lábios bocas dentes língua dos atores. A força motriz da cundaline se faz presente na presença corporal trabalhada pelo queridíssimo Fabiano Benigno.
Lindas canções. Belíssima divisão de vozes. Pleno preenchimento sonoro da caixa acústica. Certeiras imagenssonoras.
Bonito exercício. Forte. Preenchido. Parabéns.

Diário Baldio - crítica!

Os factóides e ocorridos cosmonopolitas sobrevoam as camadas de urbanidades flagrantes em sua insegurança propiciada pelo desmembramento ilustre da democracia, como exemplo singelo mas não exaustivo de como lidar com as percepções básicas de civilidade.
Por outro mas convergente vértice, não se pode negar uma gigantesca transferência do foco institucionalista para a beleza de geometrias triangulares refletidas nas máscaras, tão bem construídas lá no Barracão.
O Esinho e o longilíneo Gabriel travestem, ou melhor, transportam, ou ainda, transferem suas figuras e qualidades ao molde corporal proposto, em favor da máscara. A Tiche dirige.
As contemporâneas sugestões para se compor dramaturgia se ambientam numa necessidade de imbuir-se de, incutir a si, preencher-se de muita vontade de entender o que se passa com as pessoas.
A direção é precisa e a presença cênica corporal dos atores mais ainda. O trabalho é belíssimo. Todos eles merecem uma salva de palmas.
‘Diário Baldio’ nasce de uma possibilidade e, acima de tudo, de uma necessidade de investigação do cotidiano, de transformá-lo em cena para, só então, transformá-la, a cena, em texto. Totalmente apropriado pelos atores, os dramaturgismos, em seus diversos níveis, suplantam, extrapolam a divergência neuropsicossomática das máscaras.
Trata-se de uma pesquisa belíssima desenvolvida na rua, em sala de aula, uma pesquisa de linguagem, métodos urbanitários, máscaras, etc.

POLICARPO QUARESMA - crítica

POLICARPO QUARESMA – crítica
A partir da obra literária de Lima Barreto, Antunes Filho coloca em cena a realidade com suas máscaras desveladas. A ironia presente na trilha sonora, por exemplo, nos leva a uma sensação de delírio plena, permeada pelo ufanismo engraçadíssimo de Policarpo Quaresma, sua figura principal. O excêntrico e protuberante Policarpo, vivido por Lee Thalor, nos faz imaginar no mínimo bizarra toda a estrutura político-social que o envolve. Os devidos paralelos e suaves comparações nos remete a uma dimensão analítica, conquanto as diferenças se desdobram na estética extremamente teatral, dirigida por Antunes. Os movimentos coreográficos bem finos, ordenados e sincronizados pelo grupo de atores jovens do Macunaíma, são bem razoáveis. Talvez, contudo, poder-se-ia considerar a possibilidade de abrir mão de poucos momentos repetitivos, excessivos. Um belo espetáculo. Bela atuação de Lee Thalor. Em cartaz no SESC Consolação.
Seu Molina

FATZERBRAS – um doideira performática pós dramática velociráptica

Brasileiros e Alemães erradicados na multi simultânea realidade caótica. Ainda mais quando se fala no Bertolt Brecht. Do texto inacabado de sua autoria, “O declínio do egoísta Johann Fatzer”, surge uma apoteótica demonstração das rupturas desfragmentadas de sentido linear. O caráter performático das pedras fundamentais nos trazem à luz uma gama perpendicular de sentido - considerando-se como elementar o próprio distanciamento brechtiano – sedimentado nas breves e impactantes cores e formas das imagens de vídeo-clipe., embora de tal recurso não se utilizaram para a encenação, que tem residência temporária no SESC Pompéia . As multi simultâneas imagens bombardeiam de potencialidade a própria estrutura do espaço, principalmente. A síntese do texto, que de inacabado, possibilitou uma construção dramatúrgica e interpretativa. É chocante. E radical.
Seu Molina

RODÍZIO, EM POUCAS PALAVRAS!

RODÍZIO

Rodízio de carne. Rodízio de sushi. Rodízio de carros. Essa questão do horário é algo que...
Uma perturbação culmina na urbanização.
Precisamente, quando as cinco badaladas vespertinas badalarem no coração da terra da garoa, a xenoplacafobia transpirará por todos os poros, inebriando, qual xarope expectorante pulverizado, as ojerizas que os robôs de capacetes amarelinhos infeccionariam, não fosse a metáfora sustentável.
A saída de emergência para cruzar o rio a tempo antes que a câmera flagre o seu número. Ou o robô amarelinho que tem um apito e uma caneta. Ou o GPS. Controle total. Tensão absoluta. Crise. Faltam dez minutos para as cinco badaladas soarem e a distância a ser percorrida é longa. Uma maré de luzes de freios ilumina o horizonte vermelho. Pé no acelerador. Vamos lá. Sai da frente, ô barbeiro!
E faltam sete minutos para a síncope numerológica voltar-se contra si num movimento de auto-acusação, qual uma força magnética entre a lente e a placa.
O semáforo ao longe fica vermelho.
Falta um minuto. Pé no acelerador, vamos lá, sai da frente, ô barbeiro. O ponteiro aproxima-se do marcador imponente ao norte. E o ponteiro, num movimento brusco e repetitivo, vai cortando o vento e fazendo vrum, vrum, vrum, ultrapassa a barreira limítrofe entre o bom senso e a intolerância e dispara o alarme sensorial da perturbação de que falava há pouco.
Cinco badaladas ecoam. O olho procura o sentido. A catarse se inverte numa manifestação de quase pânico, de tal forma que nem se percebera que já cruzara o rio.

ASSASSINATO DO ANÃO, DE PLÍNIO MARCOS - UMA CRÍTICA

A radicalidade imanente do texto de Plínio Marcos, a força de suas relações entre as personas complexas, as potenciais e inúmeras camadas a serem exploradas, viabiliza, por um lado, um campo exploratório infindável de multi tentaculares possibilidades frente ao texto.Todavia, por outro lado, ainda que pese, na maioria dos casos, uma tendência de superação [embora aqui se trate de outra coisa] das dificuldades resultantes deste confronto com a dramaturgia de Plínio Marcos, seria muito arriscado negligenciar todas estas possibilidades, quer sob o ponto de vista da pesquisa, quer sob a visão concepcional da questão.
Há, contudo, ainda que se coloque em xeque, uma tentativa de superar as dificuldades, suplantando-as por uma via pré-programada de defesa, mas com alegria e verdade, na maioria das vezes.
A esse respeito, vale lembrar do risco que se corre ao encenar um texto de Plínio Marcos, no caso o “Assassinato do anão do caralho grande”. Trata-se de um texto que exige muita maturidade. Maturidade para compreensão do que se diz, para reflexão e análise profunda das várias camadas que o texto atinge. Não obstante, é possível vislumbrar apontamentos muito interessantes, tais como figuras extremamente delineadas, outras tantas configurações corais bastante consistentes, ou ainda algumas conexões entre atores bem fortes. Porém, repito, tudo isso está rarefeito de seu sentido, pois não se o encontrou. É necessário aprofundar nas camadas de compreensão do texto. Não se pode dizer interessante, nos dias de hoje, uma cortina que é apenas uma cortina ou um carretel de madeira gigante que é apenas um carretel de madeira gigante.
Por fim, gostaria de deixar aqui registrado que os atores da turma 60 da EAD são uns lindinhos. Adoro eles todos!

Seu Molina!
(espetáculo da turma 60 da Escola de Arte Dramática - julho de 2010)

ENSAIO SOBRE A SURPRESA!

ENSAIO SOBRE A SURPRESA

Imagine você sentado num dos oitocentos lugares do Teatro Municipal, assistindo a uma ópera lindíssima, vinda diretamente da companhia sinfônica dos Países Baixos, sob a regência de um maestro norte americano, ao som de Wolfgang Amadeus Mozart. Agora imagine que, apesar de o ingresso custar de trezentos a quinhentos reais, você não pagou nada porque o seu vizinho do andar de baixo ganhou na promoção da rádio cultura mas não ia usar e lhe ofereceu e você pensou “Se custa tão caro, deve ser bom. Se estou pagando nada, porque não?” Ainda que muitos não admitam, esse raciocínio é bastante corriqueiro. Ora, quem nunca ouviu aquela expressão que de tão usual quase já se tornou um jargão popular, no qual se diz que de graça até injeção na testa? O fato é que o empreendimento da cortesia é bastante difundido entre aqueles que, por uma razão ou outra, gostam de um entretenimento gratuito, mesmo que não saibam do que se trata. E, assim, voltamos ao rumo inicial do ensaio, que diz respeito a surpresa em si. Imagine, então, que você está lá sentado numa das poltronas do Teatro Municipal e a ópera já começou e você está achando um pouco chato. O movimento da sinfonia praticamente te embala para um sono bem gostoso. Mas você resiste. Afinal, você está no Teatro Municipal, no meio de pessoas potencialmente importantes e endinheiradas, que supostamente pagaram de trezentos a quinhentos reais no ingresso (não levemos em conta o fato de que essa sessão é exclusiva para assinantes do jornal e ouvintes da rádio que ganharam os ingressos). Você está sentindo certa importância no meio daquelas pessoas bem vestidas. Vestiu sua melhor camisa combinando com a sua melhor calça, calçou o seu melhor sapato com a sua melhor meia e a melhor cueca e assim por diante. Os violinos, acompanhados pelos violoncelos e contrabaixos, entoam uma melodia bastante inebriante. A percussão suave dá ao sonoro movimento uma sensação de batimentos cardíacos bastante desacelerados. Ao fundo, uma soprano entoa uma nota aguda em ré sustenido, que mais parece um apito do trem bem distante. Aquele apito que se confunde com algum som do inconsciente, que te leva diretamente para um sono profundo. E de repente, você descobre que está dormindo, afundado na cadeira semi confortável do teatro municipal, com o pescoço pendendo para o lado esquerdo, quase babando. E se estivesse acordado, você descobriria que os outros setecentos e tantos espectadores encontram-se na mesma situação, de sono profundo. Ao som da música suave e embalante, você vai longe nos sonhos mais esquisitos. Você está na corte de Luis XV, ao lado de nobres com perucas brancas e perfume francês. Quem está regendo a orquestra é ninguém menos que Mozart. O sr. Stradivarius comanda o côro de violinos e a madame Callas canta lindamente o seu mais agudo tom. De repente, BLANBLAN, um rompante de som estrepitante com o auxílio da percussão invade a sala e você acorda de seu sonho esquisito. As pessoas na platéia do Teatro Municipal olham umas para as outras, tentando disfarçar o recente susto, limpando a baba do canto da boca, massageando o pescoço e se ajeitando na cadeira. Um susto musical. Uma contradição sonora. Um paradoxo melódico e percussivo. Uma surpresa sinfônica. Sabia, aliás, que esse recurso era bastante utilizado para manter os nobres da corte acordados nas apresentações de ópera e música clássica? No teatro é a mesma coisa. Muitas vezes o espectador dorme na platéia e então é preciso que algo aconteça para que ele acorde. Um grito da atriz ou um cutucão da namorada ou o barulho da pipoca sendo mastigada ou o telefone celular tocando no seu bolso. Tudo isso não passa de uma grande surpresa.

NADA EM VÃO SÃO AS PALAVRAS BEM DITAS – CRÍTICA AO ESPETÁCULO EM VÃO, NO VÃO OU VÃO DE IR MESMO

NADA EM VÃO SÃO AS PALAVRAS BEM DITAS – CRÍTICA AO ESPETÁCULO EM VÃO, NO VÃO OU VÃO DE IR MESMO
Eporbemditasentendassebemditassejamtodasaspalavrasquedisseremasmeninasdogrupobemditosejaamarcellaeatathysobadireçãodamonicamontenegro.
Alguém já parou para imaginar a força que a palavra tem? E quando Deus criou o mundo com a força da palavra, quem duvidou da força que a palavra tinha? Pode-se dizer que a palavra tem o poder presentificador, transformador, enternecedor, etc... As camadas expressivas das palavras... aí está o ponto crucial do exercício / espetáculo das meninas. Imagens criadas pela palavra, onde cenários e roupas brancas e chuvas de palavras caídas do céu e uma gangorra são meros coadjuvantes da potencialidade que a palavra tem. A palavra que ganha contorno, forma embelezadora diante da técnica excessivamente apurada do trabalho da Mônica, excessivamente realizado pela tathy e pela marcella, aquelas duas belezinhas, delícias de se ver e se ouvir. Às vezes, é bom fechar os ouvidos e embarcar nas imagens criadas pelas palavras que, fazendo juz à ambição do grupo, são muito bem ditas. Até demais. Em alguns momentos, talvez a técnica do bem dizer ganha mais importância que as próprias imagens que os textos sugerem. Visto de um ponto de vista experimental, torna-se bastante interessante o modo como as meninas conduzem a palavra desde o seu diafragma, reverberando pela coluna, dando voltas pelas escápulas, mandíbulas, têmporas, fazendo um bate e volta na testa e saindo pela garganta de forma natural e bela. Contudo, em que pese a necessidade de estabelecer um diálogo coeso com a sua matriz, os movimentos técnicos podem ser deixados de lado, por alguns instantes, para que a beleza e a alegria e o humor dos textos venham à tona. E, mais do que isso, ver como esses textos permeiam as vivências e experiências das meninas, de modo a transformá-las, aí sim, será transformador e o público será transformado com as bem ditas palavras.

NOEL - O POETA DA VILA (CRÍTICA)

NOEL – O POETA DA VILA
Como são bonitas e encantadoras as mulheres e suas vozes, hein? O Noel devia ser um homem de sorte, de ouvidos de sorte. Nada surpreendente, levando-se em conta que Noel escrevia para elas, pensava nelas, chorava e cantava por elas. Aqui, mais uma vez, temos notícia da elevadíssima inspiração das musas, que tantas vezes prestaram aos poetas um apoio incondicional, incontrolável, invariável e inapelável.
Cada detalhe tem o dedo de seu diretor, o Dagoberto Feliz. A estrutura cabarística, amparada pela iluminação quase escura e os belíssimos figurinos em cores fortes de vermelho, traz para a relação ‘palco-platéia’ uma caliência própria da sedução que os atores imprimem nos expectadores. Quem não se sentiu seduzido por aquelas lindíssimas mulheres loiras com vestido decotado? Uma loucura, praticamente. Não se pode dizer o mesmo, contudo, da figura central do enredo. O próprio poeta, o Noel, usa um chapéu branco de abas largas, que nos impede de ver seus olhos, a fonte essencial de sua poesia. Aliás, também não se pode dizer que o Noel não tenha uma voz frágil e desafinada, e que a sua corcunda seja bastante protuberante. Essa tuberculose realmente era um problema, principalmente nas primeiras décadas do século passado, o XX.
A dramaturgia, costurada pelas próprias letras e músicas do célebre poeta que dá nome ao espetáculo, descobre, ao som das melodias por vezes suaves ou pesadas, uma narrativa, ainda que não linear, muito potente. Em nenhum momento, a estrutura do espetáculo se desprende das necessidades da narrativa. A rádio e o duelo de samba são um ponto forte dessa ligação entre um e outro. Outro ponto fortíssimo é a sintonia finíssima dos musícos com os atores/cantores, numa relação belíssima de se ver, num jogo bem cadenciado.
Seu Molina

UDI GRUDI – A DEVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Quem assistiu ao espetáculo do circo-teatro Udi Grudi passou por experiências extra-terrenas, extra-corpóreas e extra-ordinárias, qual um expectador que fica grudado na tela do cinema ao assistir ao clássico ‘A história do mundo’, de Mel Brooks.
Desde o início até o fim, a narrativa se prende em elementos bastante consistentes. As invenções e descobertas tecnológicas, cada uma a seu tempo, dão conta da linearidade quase fidedigna da própria criação divina. Ora, guardadas as devidas diferenças e proporções, não se pode dizer que os detelhes sejam negligenciados, mesmo porque, se assim não fosse, a uma hora de espetáculo seria suficiente para a criação dos seres unicelulares, somente. Mas não é isso que se vê no bem construído espetáculo dos meninos. Na tragetória da narrativa, os seres são criados, as coisas são criadas, as técnicas são criadas, as tecnologias são criadas, assim como as relações. Tudo é criação. A panela que solta fumaça que vira uma locomotiva; a roda misturada com a água que vira um rodamoinho, enfim... É muito legal. É radical. E é engraçado. Uhu! Vale a pena e o ingresso.

Seu Molina