O ano novo das tragédias!


Eu acho que sou um otimista. Realmente acredito que o ano será ótimo. Para todos. É como uma metáfora utópica das alegorias transviadas.
Contudo, aos pessimistas, por não conseguir manifestar conclusões próprias, imbuo-me das palavras de José Saramago, que, num rompante de sabedoria igual àqueles do rótulo interior do sonho de valsa, escreveu, em algum lugar do ensaio sobre a cegueira, se não me engano, o seguinte: "(...)É como a vida, minha filha, começa não se sabe pra quê, e termina não se sabe por quê."
Lembro, com um pouco de pena, confesso, das vítimas do terremoto que devastou um país inteiro, Haiti. Que horror. Tragédia pior nem a de Antígona. Ou uma qualquer de Eurípides, ou Ésquilo ou Agamêmnon. Coisa brava, muitos mortos. Bem mais que os gregos antigos. Cinquenta mil mortos. Isso que é tragédia. Um minuto de silêncio. Me despeço. Seu Molina.

O DIABO DE TETAS - uma crítica


Umas diabruras grotescas e bizarras na forma e no conteúdo. Plus radical de cenas hilariantes e esplendorosas, executadas com extremo primor, embora o rigor tenha passado ao largo. As máscaras dialógicas se confundem num misto de maré azul e vermelha, em cujo oceano as embarcações deslizam fumegantes. Supostamente, dir-se-ia que a implantação vertical de sentido abstrato da melancolia cosmopolita e pungente varia nos índices de tangência equinocial. Ora, a radicalização molecular das cápsulas dramáticas não interfere, sobremaneira, nos persuasivos coquetéis molotov, de modo que os atores passeiam levinhos através da história, que vem num primeiro e primordial plano. Sinopticamente, a Pizzoca Ganassa está alheia a todas as qualidades extra terrenas. Hipoteticamente, a realidade, que é uma farsa, se vê atravessada por um diabo de tetas e um outro diabo chifrudo. Mas isso não lhe tira - da farsa – o seu caráter sintético, hiperbólico, claustrofóbico, católico, diabólico. Os diabos deitam e rolam nessa comédia mais do que rasgada de Dario Fo, matematicamente dirigida por Cássio Scapin. E você, espectador, vai deitar e rolar de rir e aplaudir e engasgar-se com o próprio riso, assim como outrora se passou com a tia da amiga da menina da cantina. De tanto rir, engasgou e ficou sem respirar por um tempão e quase desmaiou e sei lá... Acho que essa aí quase morreu de rir. Mas é porque é uma comédia maravilhosa, deliciosa, esplendorosa, majestosa e desastrosa. Venha ver. Fansástico, fenomenal, frontal. Magnífica. Ah, é a turma 58 da EAD. Os meninos estão se formando, não é legal? Tchau. Seu Molina.

Uma reflexão imagética

“Como era possível aquele fechar de olhos, aquela perda de consciência de si próprio, aquele afundar num vazio das próprias horas e depois, ao despertar, descobrir-se igual a antes, juntando os fios da própria vida.” Italo Calvino

TRAGÉDIAS NA ERA DOS DINOSSAUROS


Marcelo é uma figura de estatura mediana; carnívoro, dentes afiadíssimos, rabo que lhe serve de arma branca, olhos cor de mel, faro preciso, um dos mais velozes.
Roberta, com suas asas retangulares e pontudas, suas garras com unhas de faca, plaina sobre a mata verde, os lagos e rios e lagoas fartos de água doce, cristalina, límpida, buscando encontrar algum peixe pré-histórico...
A cadeia alimentar sustenta a biodiversidade e equilibra o crescimento populacional. Harmonioso convívio, respeito mútuo e bastante instinto entre as variadas espécies de dinossauros.
Os extensos tapetes verdes, vibrantes, cheirosos, dão conta da perfeita plenitude ecológica biodegradável, reciclável...
Marcelo é apaixonado por Roberta, mas a mãe do moço não permite o casamento.
Alega Gertrude que a família dos tiranos sauros é tradicional. Os primeiros tiranos sauros datam de cem milhões de anos remotos.
A família de Roberta, por sua vez, não chega aos pés da família dos tiranos sauros, conhecida por sua finíssima coragem. Roberta é bisneta de um tetraneto de velociraptors, espécie surgida há apenas noventa e três milhões de anos.
E, apesar de os velociraptors serem velozes, esses perdiam terreno para os tiranos, que eram atarracados nos seus membros dianteiros. Mas, como os tiranos sauros dominavam a parada antes mesmo de os outros nascerem, então os velociraptors resignavam-se.
O pai de Marcelo, num momento de faminta dor, abocanhou a pequena cabeça do irmão mais velho de Roberta, motivo pelo qual a relação inter familiar ficou bastante abalada.
Roberta e Marcelo, num rompante de coragem e ímpeto, fugiram de seus respectivos seios familiares e combinaram encontro na terceira montanha vulcânica da direita para a esquerda, dozentos e oitenta quilômetros distos do último agrupamento de velociraptors, os guardiães dos céus.
No momento em que Roberta pisou nos ombros de Marcelo, viu-se um clarão, sentiu-se um tremor de cujas posteridades não se teve jamais notícia.

*Vale frisar o que talvez seja a satisfatória justificativa aos historiadores, principalmente os pré-históricos: os dados científicos catalogados em registros e arquivos públicos acerca dos dinossauros e outros animais pré-históricos passaram muito longe das pretensões do autor.
Seu Molina

Àqueles que poucas razões teriam para esquecer das benécies corporativas do senado federal, nos últimos diários de notícia noticiados.


Com vocês, uma citação de Ruy Tapioca...

Que reino é esse em que vivemos?
Furtam-no desde os tempos de Don Dinis!
Pudesse, furtavam-lhe as águas do mar,
A cumprir o dito popular:
‘Antes fanhoso que sem nariz’.

Furtam os reis dos vassalos,
Cobrando-lhes impostos em aluvião!
Pudessem, tributavam-lhes o despertar,
O dormir e o evacuar:
‘A ocasião faz o ladrão’.

Furtam os clérigos dos fiéis,
Cobrando missas e comunhão.
Sábio é o dito popular:
‘Frade a pedir e gato a roubar
Estão cumprindo a sua obrigação.

Furtam os fidalgos dos reis,
E dos que possuem grossos cabedais.
Aprenderam a furtar os pobres,
Surrupiando-lhes os míseros cobres:
‘Grandes ladrões começam pelos dedais’.

Se neste reino todos furtam,
E o furtar é um ver se te avias,
Não seria ocioso indagar:
Se viemos todos a furtar,
Quem vigiará os vigias?

O MERCADO!


No gingado. Escuridão ilumina as trevas. Artifício. Darling. Sorriso pra cá. Sorriso pra lá. Uma boa batida de jazz. Rebolado. E estica a mão. E dá um tchau! E vai. No rebolado. Uma performance prerrogativa do ser em face do gelo seco da concepção corporativa. Vencer. Um assobio. Quem é? É o senhor vassalo das regalias profanas. Medo. Imagem. Exploração dos limites convincentes nas cascatas habitacionais da televisão. Hollywood. E, qual? Um artesão engenheiro de essências, um artista a valer...Que espaço? Recheios inebriantes transbordam e se perdem nas constantes, formas trigonométricas da burocracia vital, peça fundamental da engrenagem da máquina do relógio. Ordem e progresso. Mercado positivista. Atualíssimo. Mercado dos prazeres. Mercado hortifrutigranjeiro. Abóbora, um real. Banana, três e cinqüenta a dúzia. Caldo de cana e pastel.

UMA CITAÇÃO, BREVE, DE ÁLVARO DE CAMPOS, BEM LEVE, PARA REFLEXÃO!!!


“(...) Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso?
Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos”.

ENSAIO SOBRE A IRRITAÇÃO!


Nessa semana passada, tivemos perante os olhos brasileiros o maior exemplo da confluência celular dimensional, que também pode ser chamada de ‘irritação’.
A irritação irrisória da irresponsabilidade irrefletida na irritabilidade irritante é evidente nesse cenário global em que vivemos.
O goleiro do Palmeiras irritou-se com o time por causa do jogo. O Wanderlei Luxemburgo irritou-se com o Marcos por causa da declaração. O Daniel irritou-se com o Eduardo por causa do controle remoto.
A irritação é condição sine qua non da existência global de esfera esfumaçada, num momento em que as eventualidades da pós-modernidade não dão conta de si mesmas.
O guarda irritou-se com o vagabundo. O inspetor de polícia irritou-se com o inspetor, E assim vai até chegar no presidente dos Estados Unidos da América.*
É uma cadeia de plena irritação pulsante e vibrante na polaridade negativa de elétrons radioativos. A irritação micro celular, no limite, alcança irritação estratosférica da sociedade humana.
De outra parte, a relação histriônica da supérflua irreverência frenética persiste em chamar de irritante a complexa participação sintética de canais sensoriais responsáveis pelo sentido de irritação.
Ora, que belo exemplo esse do futebol, em que todo estado de coisas envolve um pleno e alegórico e massificante sentimento de paixão. A paixão, por sua vez, é o invólucro perfeito da intensidade subterrânea e menstrual; a irritação, per si!
Como questionamento pseudo-conclusivo, deixo à baila a problemática substantiva das adjetivações adverbiais e sintáticas, bem como dos fonemas assindéticos verbais, acerca da palavra que carrega em si a responsabilidade de concluir-se. Irritação.

*O presidente dos Estados Unidos da América irritou-se com sua secretária de estado, que irritou-se com o ministro da guerra, que irritou-se com o ministro de defesa, que irritou-se com o diretor do FBI , que irritou-se com o chefe de polícia de Nova York.
Este, por sua vez, irritou-se com o patrocinador anônimo.
O dono da fábrica de armas irritou-se com o presidente do conselho, que irritou-se com o vice presidente geral. Este irritou-se com o vice presidente de finanças, que irritou-se com o diretor de sistemas, que irritou-se com o gerente geral de logística, que irritou-se com o coordenador de frotas, que irritou-se com o supervisor dos engenheiros mecatrônicos, que irritou-se com o engenheiro com doutorado em balística, que irritou-se com o estagiário estudante do MIT , que irritou-se com a sua namorada.
A namorada irritou-se com o irmão, que irritou-se com a mãe, que irritou-se com o pai, que irritou-se com a sogra, que irritou-se com a filha, que irritou-se com a empresa da qual comprou mini berimbaus para dar de brinde na festa de seu casamento com o estagiário.
A empresa que vende os mini berimbaus irritou-se com o administrador do site que efetuou a venda. Um brasileiro, obviamente.
Pereira da Silva irritou-se com o síndico do prédio onde mora, que irritou-se com o zelador, que irritou-se com o porteiro, que irritou-se com o faxineiro, que irritou-se com o morador que jogou papel de bala no chão do elevador.
Este irritou-se com o caixa do banco, que irritou-se com o motorista do ônibus que não parou no ponto, que irritou-se com o motoboy, que irritou-se com a madame da Mercedes, que irritou-se com o manobrista do salão de beleza, que irritou-se com o menino que pede esmolas, que irritou-se com a madame da Mercedes, que irritou-se com a hostess do salão de beleza...
Na verdade, não interessa. Mas não se irrite.
PS: A publicação do texto não é imediata à laboração da escrita, nesse caso.

PRAÇA DO RELÓGIO


A cotovia canta. O quero-quero canta. O pardal canta e faz uma pose em cima da pedra cinza. Mal se vê as orelhas levantadas de um cachorro atento não sei em que, que late vez ou outra. Uma árvore. E outra. E outra. Um cogumelo verde iluminado pela exuberante e minguante lua de uma noite de outono. Uma pedra. E outra. E outra. Um relógio. Muitas pedras e cimentos e tijolos e concreto, atravessando o rio. Villa-Lobos. A ilha subversiva e submersa da anti tecnologia estudantil prevalece, no plano da utopia, sobre a obscuridade cosmo paulistana.
Que se diga da utopia um sonho somente, já é o bastante. Apenas um sonho.
É hora de enfrentar a plasmose zooférica da retaguarda capitalista, deixar de lado a utópica possibilidade do idealismo artístico e arqueológico e colocar o leite na geladeira da pandora.

NO PAPEL DA VÍTIMA – CRÍTICA TEXTUAL SINÓPTICA




O que eu devo fazer? Dá-me um conselho.
Por que tanta pressa? Você não chega a lugar algum sem faculdade.
O caranguejo tem cheiro de mijo.
Irmãos Presniakov. A descarga do banheiro da casa dos meus pais. Valya. Uma impossibilidade transgênera de envolvimento cultural. Desperdiçar o tempo num mundo cão. Inspetores investidos do espírito de nariz vermelho, assim como o sargento, assim como o cozinheiro, assim como o maestro virtual da orquestra de câmara, que foge, aos arrepios, do palhaço piolin e seu assistente arrelia. É simples. Muito simples. E cerveja? Tem? E bolo de semente de papoula? ...ele é inteligente, mas ele não ta nem aí, ta cagando e andando pra isso...
A essa altura isso é importante?
‘Começando a reconstituição do crime referente ao caso da reconstituição do crime feita pelo Inspetor C. D. Chnurov...’
Faculdade de Filologia da Universidade Estadual dos Urais (Universidade Gorki, em Ekaterinburg) Oleg e Vladimir. Um gravador no armário. Perplexidade.
NO PAPEL DA VÍTIMA
EAD – Turma 58
Direção de Ariela Goldman
De 8/7 a 2/8, quarta a sábado, 21h e domingo, 20h
No Teatro Laboratório da ECA
Campus da Cidade Universitária
Entrada gratuita

ARROTO


A explicação terminológica dos terminais explicativos não se obstam por si mesmas somente no prisma categórico das emoções psicofísicas inspiradas no método de Constantin, mas também dentro da abrangência retumbante das ervas daninhas universais em suas excelentes bizarrices mitocondriais.
A chateação gerada das profíquas balanças mancas, ao certo, reconhece-se na base pictórica das camuflagens autoperambulares. Nisso reside o ponto central da questão sistêmica do militarismo ruralista no Rio Araguaia. O caleidoscópio lunar traz detalhe da bandeira norte-americana fincada pelo tripulante da Apollo 11.
Por sua vez, o microscópio flagra a deficiência renal a partir do núcleo da célula do sangue subtraído de um diabético.
Nos Estados Unidos, o Mac Donald´s vendeu bilhões de Bic Mac. E trilhões de coca-cola. Um Yes soltado do diafragma. Cheiro de picles. A visceralidade sustentável é programada com libertinagem proporcional à falta de pudor sociológico.
Os assuntos secretos da diretoria legislativa da capitania hereditária vêm à tona num momento em que a anestesia midiática se faz potente na ludibrio organizado pelos coronéis. O escândalo das equimoses epiteliais da laringe, ao escapar da parede quando o arroto passa em direção ao princípio da língua, é um exemplo da temática pertinente aos jardineiros e mordomos e motoristas pagos pelo Senado Federal. E vice versa.

USP, NOVE DE JUNHO DE DOIS MIL E NOVE – UM ENSAIO SOBRE O CONCEITO DA ESTÁTUA VIVA
(Referência ao triste episódio ocorrido entre membros da comunidade universitária e a força tática da Polícia Militar do Estado de São Paulo)

Se a estátua não se move, a estátua viva, por sua vez, é viva em seu não movimento.
Se imaginarmos uma estátua viva no parque do Ibirapuera, numa tarde de domingo, tirante o fato do chapéu passado, teremos um exemplo perfeitamente hipotético daquilo que se toma como premissa básica do próprio conceito da estátua viva.
Para o domingueiro a passeio no parque, a estátua é imóvel. Porém, se adentrarmos as células e músculos e ossos e sangue e veias e artérias e órgãos e olhos e pulso e ritmo da estátua, veremos que ela está mais viva do que nunca. Um anseio e desejo e necessidade de se fazer notar perante a apatia semântica do funcionário público com seu cachorro, da doméstica e o cobrador de ônibus que levam seus filhos para fazer um piquenique no parque, do juiz de direito que pratica Cooper numa bela tarde ensolarada de domingo de quase inverno.
Tudo isso para trazer à metafórica revelação o episódio dos estudantes da Universidade de São Paulo, e seus funcionários, e seus professores. Transbordamento de vísceras surpreendentes, vibrantes e tonificantes.
A Força Tática da Polícia Militar transfere ao âmbito institucional a responsabilidade de infringir as leis constitucionais de garantias fundamentais dos direitos humanos.
A USP virou praça de guerra. Os escudos e capacetes blindados cuspiam fumaças derivadas das famosas bombas de efeito moral e gás de pimenta malagueta, a mais forte.
O prédio da faculdade de letras e filosofia virou câmara de gás. Não foi bolinho não.
São níveis diferentes de envolvimento cultural, numa explícita, mas deslocada citação aos irmãos Presniakov, em ‘No papel da vítima’.
Como se a reitoria e o governo do Estado e a mídia na sua imensa maioria fossem transeuntes domingueiros que passeiam no parque de domingo de tarde e não enxergam as células e os músculos e as artérias e as idéias e os pulsos e o ritmo e os anseios e os desejos e as necessidades dos estudantes, dos funcionários, dos professores da universidade de São Paulo, que não passam de estátuas vivas aos olhos alheios e indiferentes e desinteressados.
Como manifestação de repúdio absoluto contra a invasão da Polícia Militar no campus da USP, no Butantã, em São Paulo, bem como contra o disparo desenfreado de agressões desconexas contra os estudantes, deixo aqui meu subscrito.
Seu Molina.

NA RUA


Eu vi um cachorro marrom lambendo a água da sarjeta da Avenida Cidade Jardim. Na caranga muitas coisas se perdem. O vulto da vermelhidão semafórica perpetra cintilantemente na faixa listrada um holofote devasso que interrompe o fluxo pneumático do trânsito cosmo lunático.
A luz do poste, que se funde com a lua ao olhar de olhos desenraizados, ilumina a superfície diagonal do estabelecimento precoce da relação biográfica de Marta Suplicy com a mapografia panorâmica da cidade de São Paulo.
A aparição repentina da autosuficiência regida sob a forma de pequenos morcegos ensangüentados translucida, através das travessas e becos diagonais, as transversais atravessadas na noite.
Com o auxílio de uma insígnia supervalorizada e um cano de ferro chumbado, os homens de bonés cinzas andam em seus carros iluminados e barulhentos. Equipados e sempre alertas, a ronda programática é feita diuturnamente sob a égide de sãos padroeiros e correligionários.
Por outro lado, a água que o cachorro vira lata bebia exerce a função, nessa parábola abstemológica, da precariedade sintomática das anomalias urbanas próprias dos elementos caóticos da cidade grande em dias de muito chuva. Sete mil garrafas pet, entre refrigerantes e águas e sucos e iakultes, trezentos potes de requeijão e iogurtes, alguns vazios e outros estragados, e a lixeira suburbana se consome vagarosamente implodindo as fundações palaciais de forma a perdurar para a eternidade a imagem arrasadora da destinação institucionalizada.

'MEDIANO' - uma crítica teatral


MEDIANO – COM MARCO ANTONIO PÂMIO, DIREÇÃO DE NAUM ALVES DE SOUZA E TEXTO DE OTAVIO MARTINS
MEDIANO – Uma crítica Mediano. Um perigo. Radicalização de subterfúgios. O limite da usurpação da máquina pública. Atualíssimo. Instantâneas e constantes e subseqüentes bizarrices sobre a esteira rolante ao abismo. Brasil, o país do futuro, segundo Stefan Zweig, pensador alemão exilado em terras tupiniquins desde 1941 até o ano de sua morte suicida, oito meses mais tarde.Mas voltemos à esteira rolante ao abismo de incongruências congressistas do congresso nacional. O assunto, neste caso. O texto potente de Otavio Martins, aliado à direção sutil de Naum Alves de Souza, mais a multinterpretação aterrada de Marco Antonio Pâmio, entre outros, se unem numa unidade concreta de imagens superpotentes e perfurantes e...é o espetáculo. No SESC Pinheiros. E depois no Parlapatões. Um tema da brasilidade secular. Desde que o samba é samba. Desde que o futebol é futebol. Desde que o homem é um homem...a corrupção. Enraizamento de costumes podres de surrúpios de bens alheios. No caso, a verba pública. Milhões desviados. Um retrato poético e plausível da plácida margem do Ipiranga retumbante e sua política, em especial o congresso nacional, em Brasília-DF.Assistam. Ótimo espetáculo. Parabéns a todos. Seu Molina.

'PALHAÇOS' - uma crítica


OS PALHAÇOS DOS ENCONTROS – CRÍTICA AO ESPETÁCULO ‘PALHAÇOS’, TEXTO DE TIMOTCHENKO, DIREÇÃO DE GABRIEL, ATUAÇÃO DE DAGOBERTO, DANILO, DEPENDE.
07 maio 2009

Cruel sentido sobressai na leve sublevação conectiva entre duas mascaras que revelam e escondem ao mesmo tempo.
Aquele que busca conforto no desconhecido pode dar de cara com um buraco negro no qual se perderam todos os sentidos.
Por outro lado, a solidão mora ao lado do orgulho de não aceitar-se em sua ingenuidade. Quem procura reconhecer-se a partir do outro não pode perceber seus próprios frutos; que lhes conferem identidade.
Qual capacidade psico-física do palhaço que, ao revelar-se na relação com o outro, revela nada menos que o outro.
O limite tênue do riso entalado para o choro fugido da garganta transforma-se em gota salgada que escorrega só pela janela da alma.
Uma relação pesada e, contudo, quase psicodramática.
Expurgação dos medos de quem olha de fora.
Pânico caótico por trás da máscara. Desequilíbrio constante. Escuta de duas vias eleva à máxima potência a escuta do vértice contrário do triângulo. Extrema conexão com a platéia.
Excelente espetacular exercício.
Seu Molina.

NUM LAGO DE PATOS E CORVOS


Um lago. Sujo. Fedido. Feio.
Numa margem, patos. Noutra, corvos.
Havemos de denominar este ponto de vista, o do autor, o dos patos. Portanto, por conseqüência, havemos de denominar o lado dos corvos de o outro lado.
Feitas as elucidações preliminares, passamos a relatar o que houve naquele literalmente fatídico dia – ao menos é o que se deve ou pode deduzir da presença de abutres – no qual a comunidade patolina assistiu ao falecimento precoce do patinho que mal tinha largado as fraldas.
Todos guardavam o corpo do patinho em cima de um tronco de madeira dentro de uma pequena barraca improvisada, com uma caixa d´água e até um pequeno barco na borda do lago. Todos os patos, em volta do dito cujo, entoavam canções fúnebres ancestrais, que datavam de mil setecentos e oitenta e nove, quando um ‘french-duck’ como era conhecido, morreu decapitado junto com seu dono, o rei da França.
A revolução deixou a comunidade de patos perplexa. Todos os patos de Paris vieram aos muros da Bastilha e criaram La marseillaise patolina.
Essa toada chegou a São Paulo quando, confundidos com galos e galinhas saudáveis fugidas da gripe espanhola, na década de trinta, patos franceses, os famosos french-duck, mas também patos ingleses, alemães, holandeses, italianos, gregos e, principalmente, espanhóis, vieram nas primeiras imigrações e desembarcaram no porto de Santos.
E desde lá as canções fúnebres fazem parte do cotidiano funerário dos patos.
Fato é que, em dois mil e nove, cerca de trinta patos cantavam La marsellaise patolina em versão tupiniquim.
Quando já estavam finalizando o rito, se ouviu um piado corvalino. E de repente mais um piado corvalino. E os piados corvalinos, do nada, começaram a surgir mais intensos e avolumados.
Da janela da cabana, via-se a margem oposta repleta de corvos famintos em busca de um pedaço de carne fresca; o precoce patinho que mal tinha largado as fraldas.
Os corvos, ou abutres, ou urubus, se amontoavam cada vez mais e sobrevoavam a cabana dos patos com uma pachorra inacreditável. Os patos não poderiam vacilar. Qualquer bobeada seria o fim.
Uma das máximas da toada patolina diz respeito exatamente a isso: nunca deixe de amar e proteger seus mortos assim como aos vivos.
A batalha seria dura.

CHARADA


O menino do boné vermelho pra trás senta na guia do meio fio que divide a praça da rua. Espera a máquina tricolor esverdear e conduzir à sua fluidez truncada o trânsito de carros de janelas fechadas e blindadas. As havaianas pequenas deslizam e deixam sua marca no asfáltico solo, incandescente piano de poucas cordas bambas.
Esverdeou. Os paquidermes de Roberto Piva se enfileiram quais gotas d´água sendo comprimidas num frasco de perfume azedo.
No meio das janelas suspensas, destaca-se ao fundo um vidro lascado e trincado e o menino, então, como num corredor escuro que finda num ponto luminoso, caminha diretamente ao rapaz por trás do volante e diz:
- Posso fazer uma pergunta?
O rapaz olha para o menino e diz que sim.
O menino diz:
- Qual é o meio de transporte que não faz curva?
E o rapaz, no seu íntimo inconsciente, lembra que aquela pergunta já lhe havia sido feita num passado de localização inqualificável, talvez pelo mesmo menino da rua, ou não.
E, como se lembrara da pergunta, por certo, mas não óbvio, lembrou-se da resposta:
- Elevador!
O menino fez cara de quem acha que a vida segue rumos estranhos àqueles por nós planejados. A sua frustração evidente estampa-se na cara até quando o rapaz do volante diz como quem tenta dar um conselho:
- Você devia fazer perguntas mais difíceis.
O menino abre um sorriso com um dente faltando e outro mole e se afasta para a guia à espera do momento em que a máquina, novamente, vai lhe trazer, daqui a uma hora, talvez, uma outra janela aberta e disponível.