Quem não poderia lembrar que, há uns pares de anos, no começo da década, lançou-se mão de uma piadinha bem singela e infâme, cuja temática envolvia aquela região separatista da Rússia, a Chechênia? “Invadiram a Chechênia”, diziam os fervorosos piadistas machistas, provavelmente, numa mesa de bar, falando sobre mulheres, aos goles de chop ou cachaça ou pinga. Certo é que, se com vodka estivessem inebriados os ditos piadistas machistas, a piada ganharia um tom a mais de veracidade. Todavia, em que pese a equivalência etílica à geografia mapográfica do conflito, não se pode aludir aos próprios russos uma piada dessa natureza. Primeiro, porque o trocadilho não faria sentido algum. Segundo, porque pimenta no cú dos outros é refresco. Ora, um russo não acharia graça nenhuma nessa piada. Quanto mais um checheno. Para quem não está exatamente a par das notícias que recentemente deram conta dos conflitos entre russos e chechenos, segue um breve resumo do que se passa. A Chechênia é uma região do cáucaso, ao norte da Rússia, que pleiteia a sua instauração como Estado independente. Desde o período do domínio soviético, os Chechenos buascam a sua autonomia política, econômica, social, religiosa... Alguns anos atrás terroristas chechenos invadiram uma igreja com centenas de fiéis dentro vários e vários morreram. Noutra época, invadiram uma escola com centenas de alunos dentro. Vários e vários morreram. Agora, as viúvas de negro entraram no metrô de Moscou com cintos de tnt e se explodiram, levando consigo dezenas de pessoas. Os moscovitas estão super preocupados. O presidente Medvedev já soltou os cachorros. Acho que eles se chamam Boris, Igor, sei lá. O premiê Vladimir Putin disse que a Rússia irá destruir os responsáveis pelos atentados terroristas. Destruir? Que palavra forte. Acho que o Putin está exputindo de raiva. Desculpem o trocadilho. Onde isso vai parar?
Seu Molina
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ERVILHAS
Havia, certa vez, uma comunidade de ervilhas verdes, na sua maioria. Mas disso falemos mais tarde. Todas elas viviam harmoniosamente, na medida do possível, e do impossível também. Eram por cerca de seiscentas e vinte ervilhas que dividiam um espaço de pouco mais de setecentos centímetros cúbicos. Levando-se em conta que cada ervilha tinha, em média, um centímetro cúbico, umas mais e outras menos, e que entre elas transitava uma água da qual falaremos logo mais, cada ervilha ocupava quase o seu próprio tamanho. Ou seja, quase não podiam se mexer, a não ser quando a água as empurrava para rumos relativamente desconhecidos. Guardadas as devidas proporções, era como se na cidade de São Paulo houvesse quinze milhões de caixões e que cada um deles fosse ocupado por um habitante, de modo que não pudessem se mover, respirar ou comunicar-se entre si. E que esses caixões estivessem boiando num alagamento sem fim. No caso das ervilhas, é sabido que essas não tem pulmões e, por tal razão, não precisam de ar puro. Fato que, por si só, alivia para o lado das bolinhas verdes quando dizemos que as mesmas não podiam respirar. Voltemos à água. Era uma água que vivia lá desde os primórdios daquela comunidade. Fazendo uma retrospectiva de sua vida passada, as ervilhas não se lembram de terem convivido sem a presença daquela água, que sempre se marcou pela sua presença forte e incontestável. A água era de um verde bastante característico, impregnada da essência das próprias ervilhas, embebida da vitalidade e sabor, cor e cheiro das mesmas. A água, naquela comunidade, era onipresente. Estava em todo e qualquer lugar que não fosse ocupado por uma ervilha. Ela tinha a função de evitar toda sorte de desentendimentos entre as habitantes daquele sítio, que era muito pouco arejado, diga-se de passagem. Aliás, não era arejado – não tinha ar, posto que já foi dito que naquele espaço eram ervilhas ou água – e também era muito pouco iluminado, uma vez que o sol não conseguia, ou pelo menos nunca conseguiu até aquele dia, alcançar as redondezas habitadas pelas ervilhas. Levando-se em consideração, mais uma vez, que as ervilhas não têm olhos para enxergar, essa escuridão também não chegava a ser um grande problema. Por outro lado, ainda que a luz e o calor do sol não se presentificassem diante daqueles seres minúsculos, é certo dizer que lá dentro era bastante quentinho. A água mantinha uma média de temperatura de vinte e oito graus, o que trazia uma sensação de conforto para as ervilhas. Mas essa sensação de conforto era apenas aparente, pois, apesar de sua serenidade e calma, a água comandava com mãos de ferro toda aquela região. Cada ervilha tinha o seu próprio espaço e não podiam transitar fora dele. Havia a região nobre da comunidade, onde as maiores ervilhas, mas a minoria delas, tinham o direito de sitiar. Ou seja, apenas vinte por cento da totalidade das ervilhas ocupavam a metade inteira de cima da lata – sim, é uma latinha de ervilha, cuja marca é desnecessário mencionar. O restante das ervilhas, de cor não tão verde, algumas amareladas, outras opacas, tinham a metade de baixo da lata para ocupar, que era bem menos iluminada e arejada, se é que se pode considerar arejado algum ponto daquele lugar. Enfim, podemos dizer que a parte de baixo era infinitamente menos aconchegante e confortável. Todas as ervilhas que buscavam uma certa ascensão, ou seja, que tentavam ocupar, ilegalmente, a parte de cima e viver a vida das ervilhas grandes, verdes e bem afortunadas, eram severamente repreendidas pela água, que os levava para o fundo da latinha, e lá ficavam até que outra ervilha recebesse o mesmo castigo e fosse para o fundo. Então a presidiária anterior subia um degrau na escala hierárquica. Em aspectos gerais, é óbvio dizer que a comunidade das ervilhas não era tão harmoniosa como foi dito no início dessa narrativa. Ao longo de toda a eternidade daquela comunidade, se instaurou uma classificação por classes. Ervilhas fortes, verdes, coradas, robustas, saborosas, apetitosas que tinham todas as primazias providas pela água, e as demais, que eram consideradas ‘o resto’, descartadas de um ideário aprazível para denominar-se uma ervilha de boas maneiras. Essas miseráveis eram, na sua quase totalidade, amarelas, pequenas e defeituosas.
Certo dia, daqueles em que parece que tudo ocorrerá dentro da normalidade, com poucos casos de repreensão ou de ervilhas preconceituosas que chateiam as outras, devido à sua classe ou por serem pequenas, aconteceu algo que ninguém poderia prever, posto que nunca havia acontecido. Ocorreu um fato inédito, um fato sem precedentes na história daquela comunidade, que traria mudanças radicais para a vida daquelas ervilhas. É preciso dizer, também, embora se constate com o narrar dos acontecimentos, que aquele episódio seria definitivo para o término da própria comunidade. Mas, o mais curioso é que, ainda que as ervilhas, mesmo as mais sensitivas, para não dizer espertas e inteligentes, não soubessem exatamente quais seriam as conseqüências daquela fatídica ocorrência, todas elas uniram-se, buscaram um fortalecimento coletivo, em prol daquilo que mais tarde denominar-se-ia instinto de sobrevivência, de preservação da espécie. Por volta das doze horas daquele dia inédito, ouviu-se um barulho muito estranho de porta se abrindo. As ervilhas já tinham ouvido aquele barulho antes. Contudo, aquele barulho, isoladamente, não era muito significativo. Tão logo aquele barulho cessou, houve uma força externa inexplicável que balançou toda a estrutura da comunidade. Não só todas as ervilhas mas também a água, perderam o seu auto-controle. Começaram a ser jogadas umas contra as outras, contra as paredes de alumínio, contra o teto e, ao mesmo tempo contra o chão. Nunca havia se dado tal calamidade, em tais proporções. Essa agitação durou, na contagem de um relógio humano, mais ou menos um minuto. Quando se deu a calmaria, a qual, mais tarde, descobriu-se ser somente passageira, havia ervilha grande e saborosa no fundo da lata e outras que estavam literalmente esmagadas. Por outro lado também havia ervilhas feias e foscas na parte da cima, boiando sobre uma água completamente desnorteada e entontecida, para a qual a divisão hierarquicamente estabelecida, não só já havia a muito se perdido, mas também não tinha mais nenhum sentido, obra da confusão e do transtorno havidos. De repente, veio barulho perfurante lá de cima, como se alguma arma tivesse lhe feito um furo. Então, começou a entrar uma claridade muito intensa, muito brilhante, que vinha de um pequeno ponto da extremidade superior da latinha. Inacreditavelmente, as ervilhas sentiam que a mesma estava sendo virada. O teto foi se dirigindo para baixo e o chão foi para cima. Por conta da gravidade, todas as ervilhas foram imediatamente pressionadas contra o teto, e isso fazia um barulho muito diferente, fora do normal. Parecia que aquele teto de alumínio, a qualquer momento, iria ceder sob os pés das assustadas ervilhas.
Logo em seguida, quando se achava que tudo de impossível já tinha acontecido, surpreendentemente, a água, lentamente, começou a escorregar pelo buraco que havia sido feito na latinha. As ervilhas começaram a entrar num estado de choque e desespero completos. Era inimaginável que elas pudessem existir sem aquela água ao redor. É como se, numa visão mais romântica da situação, disséssemos que um caderno não pode viver sem as suas folhas ou que as calças não podem viver sem as pernas. A partir daquele momento, as ervilhas começaram a rememorar todo o tempo em que passaram juntos com a água naquela lata. Desde os maus agouros até os dias de pura felicidade e alegria foram objeto de lembrança daqueles seres amedrontados. Enfim, a água foi escorregando e, cada vez menos ervilhas podiam apreciar um último contato com a mesma, sentindo nela o seu próprio cheiro e sabor. Quando toda a água terminou de esvair-se por entre as ervilhas tristes e molhadas, pairou um sentimento muito estranho, quase a retratar a sensação de perda de um parente muito próximo. As ervilhas simplesmente não sabiam o que fazer. Ficaram paradas ali, sem se mexer, mesmo porque não conseguiam, posto que estavam presas umas sobre as outras. Era a água quem possibilitava a locomoção delas. De repente, novamente a surpreender o espírito pouco empreendedor e aventureiro das ervilhas, ouviu-se um barulho ensurdecedor. Por cima delas, o teto estava sendo rasgado nas suas bordas e a intensidade de luz e brilho aumentou infinitamente. Segundos depois a comunidade das ervilhas já estava sem teto. Melhor seria se elas conseguissem, a tempo, se organizar para formar um movimento contra tal atitude tirânica, perpetrada por não se sabe quem. Mas não conseguiram. Em questão de mais alguns segundos, a latinha foi virada e as ervilhas começaram a cair numa grande travessa. Assim que caíram e sentiram aquela travessa fria e espelhada embaixo delas, já sabiam qual seria o seu destino. Ao lado de alguns tomates, outros pepinos, milhos, ovos, palmitos e cebolas, as ervilhas tomaram o seu lugar na grande salada que seria ingerida logo mais, na mesa de almoço de alguma família saudável.
Certo dia, daqueles em que parece que tudo ocorrerá dentro da normalidade, com poucos casos de repreensão ou de ervilhas preconceituosas que chateiam as outras, devido à sua classe ou por serem pequenas, aconteceu algo que ninguém poderia prever, posto que nunca havia acontecido. Ocorreu um fato inédito, um fato sem precedentes na história daquela comunidade, que traria mudanças radicais para a vida daquelas ervilhas. É preciso dizer, também, embora se constate com o narrar dos acontecimentos, que aquele episódio seria definitivo para o término da própria comunidade. Mas, o mais curioso é que, ainda que as ervilhas, mesmo as mais sensitivas, para não dizer espertas e inteligentes, não soubessem exatamente quais seriam as conseqüências daquela fatídica ocorrência, todas elas uniram-se, buscaram um fortalecimento coletivo, em prol daquilo que mais tarde denominar-se-ia instinto de sobrevivência, de preservação da espécie. Por volta das doze horas daquele dia inédito, ouviu-se um barulho muito estranho de porta se abrindo. As ervilhas já tinham ouvido aquele barulho antes. Contudo, aquele barulho, isoladamente, não era muito significativo. Tão logo aquele barulho cessou, houve uma força externa inexplicável que balançou toda a estrutura da comunidade. Não só todas as ervilhas mas também a água, perderam o seu auto-controle. Começaram a ser jogadas umas contra as outras, contra as paredes de alumínio, contra o teto e, ao mesmo tempo contra o chão. Nunca havia se dado tal calamidade, em tais proporções. Essa agitação durou, na contagem de um relógio humano, mais ou menos um minuto. Quando se deu a calmaria, a qual, mais tarde, descobriu-se ser somente passageira, havia ervilha grande e saborosa no fundo da lata e outras que estavam literalmente esmagadas. Por outro lado também havia ervilhas feias e foscas na parte da cima, boiando sobre uma água completamente desnorteada e entontecida, para a qual a divisão hierarquicamente estabelecida, não só já havia a muito se perdido, mas também não tinha mais nenhum sentido, obra da confusão e do transtorno havidos. De repente, veio barulho perfurante lá de cima, como se alguma arma tivesse lhe feito um furo. Então, começou a entrar uma claridade muito intensa, muito brilhante, que vinha de um pequeno ponto da extremidade superior da latinha. Inacreditavelmente, as ervilhas sentiam que a mesma estava sendo virada. O teto foi se dirigindo para baixo e o chão foi para cima. Por conta da gravidade, todas as ervilhas foram imediatamente pressionadas contra o teto, e isso fazia um barulho muito diferente, fora do normal. Parecia que aquele teto de alumínio, a qualquer momento, iria ceder sob os pés das assustadas ervilhas.
Logo em seguida, quando se achava que tudo de impossível já tinha acontecido, surpreendentemente, a água, lentamente, começou a escorregar pelo buraco que havia sido feito na latinha. As ervilhas começaram a entrar num estado de choque e desespero completos. Era inimaginável que elas pudessem existir sem aquela água ao redor. É como se, numa visão mais romântica da situação, disséssemos que um caderno não pode viver sem as suas folhas ou que as calças não podem viver sem as pernas. A partir daquele momento, as ervilhas começaram a rememorar todo o tempo em que passaram juntos com a água naquela lata. Desde os maus agouros até os dias de pura felicidade e alegria foram objeto de lembrança daqueles seres amedrontados. Enfim, a água foi escorregando e, cada vez menos ervilhas podiam apreciar um último contato com a mesma, sentindo nela o seu próprio cheiro e sabor. Quando toda a água terminou de esvair-se por entre as ervilhas tristes e molhadas, pairou um sentimento muito estranho, quase a retratar a sensação de perda de um parente muito próximo. As ervilhas simplesmente não sabiam o que fazer. Ficaram paradas ali, sem se mexer, mesmo porque não conseguiam, posto que estavam presas umas sobre as outras. Era a água quem possibilitava a locomoção delas. De repente, novamente a surpreender o espírito pouco empreendedor e aventureiro das ervilhas, ouviu-se um barulho ensurdecedor. Por cima delas, o teto estava sendo rasgado nas suas bordas e a intensidade de luz e brilho aumentou infinitamente. Segundos depois a comunidade das ervilhas já estava sem teto. Melhor seria se elas conseguissem, a tempo, se organizar para formar um movimento contra tal atitude tirânica, perpetrada por não se sabe quem. Mas não conseguiram. Em questão de mais alguns segundos, a latinha foi virada e as ervilhas começaram a cair numa grande travessa. Assim que caíram e sentiram aquela travessa fria e espelhada embaixo delas, já sabiam qual seria o seu destino. Ao lado de alguns tomates, outros pepinos, milhos, ovos, palmitos e cebolas, as ervilhas tomaram o seu lugar na grande salada que seria ingerida logo mais, na mesa de almoço de alguma família saudável.
Fui numa festa supimpa.
Fui numa festa, esses dias, lá dos calouros da Escola de Arte Dramática. Uma festança, lá num hotel do centro da cidade. Cambridge. Primeiro, enfrentei uma confusão na fila. Uns bêbados e arruaceiros queriam entrar no lugar sei lá o quê e os seguranças impediram e tal. O Caco ta de prova. Mas aí, eu entrei. A moça da recepção é muito simpática. Não tenho meu nome na lista! E agora? Já sei. Vou usar o nome do Daniel, meu vizinho. Falei que eu era ele e entrei na festa. Atravesso a cortininha. Um ambiente escuro iluminado, várias pessoas. Alguns conhecidos. Encontrei o Vitor, encontrei a Tatiana, encontrei a Eliane, o Caco, o Davizinho, o Fabiano, uma mulher super charmosa que parecia muito com o Tayrone, uma travecona sem sal, a Dani, e mó galera. O Davizinho me disse: E aí Seu Molina, beleza? Você viu a Madame? Eu não, aonde? Ali! Segui com o olhar o dedo da pontaria até um pedestal onde ficavam as pick-ups. Uma escadinha à esquerda. Um palco à direita. Muitas luzes e fumaças. Atrás da sombra de névoas, ao som de uma música muito louca, ninguém menos ninguém mais que Madame Elizabeth the Queen! A DJ do negócio. Achei radical. Excelente. Eu não sabia. Quem diria? Madame de DJ. Adoro. Fui falar com ela. Muita excitação. Uau! A porta estava fechada. Bati uma vez. Bati outra vez. Estava um barulhão. Ninguém ouvia. Até que veio uma moça que estava ajudando a Madame, acho que ela é do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos não tenho certeza, abriu a porta e me deixou entrar, depois que eu me apresentei Olá, gostaria de falar com a Madame. Parabéns à turma 62 da EAD, espero que vocês tenham muito sucesso e alegrias e paz e saúde e escuta e harmonia e simpatia e perseverança e verossimilhança e tudo de bom.
Seu Molina
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Pra Ler - uma nova e antiga possibilidade!
Olá amigos, como vão? Há tempos que estou ausente da tecnologia virtual digital internet comunicativa. Também, não era para menos. Não consegui parar em frente ao computador nestes últimos dois meses, três semanas, quatro dias, cinco horas, seis minutos e sete segundos, oito, nove. Mas agora basta. Estou aqui de volta, depois de longa aventura pelas vias superfaturadas de adrenalina e fortes emoções. Num dia destes, domingo ensolarado nascido depois de contínuos dias de chuva escabrosa, as árvores faziam sombra verde sobre a arena no Parque da Água Branca. Um evento enorme que demandou a participação de mais do que meia dúzia de gatos pingados. E por falar em pingado, naquela manhã eu tomei o meu copo de café com leite e duas gotinhas de adoçante, pra variar. Segui para uma tenda toda colorida de azul e verde e vermelho e amarelo e roxo e mais outras cores. Brancas eram as mais de mil cadeiras de plástico dispostas diante do palco com mais de um metro e cinquenta e nove centímetros de altura, dez metros de largura e cinco de fundura. Por trás, desciam uns degraus direto para o camarim mambembe improvisado que o pessoal da organização preparou, com algumas ameixas pretas, uvas verdes e águas minerais. Café e chá e bolachinhas. Lá encontrei o Rubi, a menina da novela, a abóbora saltitante e os demais integrantes da banda Mirim, cujos prenomes e sobrenomes ou sequer apelidos eu me lembro. Desmemorialidades à parte, o que devo dizer, realmente, é que a manhã daquele domingo foi especial. Vários encontros superinteressantes, muitas pessoas, muita alegria, muita música, muita palhaçada. Para quem não sabe, foi a inauguração do projeto Pra Ler, um programa da Secretaria de Cultura do Estado de incentivo à leitura nos centros periféricos de São Paulo. Você sabia que o brasileiro, em média, lê dois livros por ano? É muito pouco, não é verdade? Então, imagina você. Se o fulano lê uns três livros por mês, quantos beltranos deixarão de ler sequer um livro por toda a vida? Isso não é brincadeira, não. Antes fosse. Agora, deixando de lado um pouco essa matemática radical para a qual a média é o resultado da pesquisa do ibope, o fato é que as pessoas precisam ler mais. E esse projeto tem este intuito desde a sua concepção. E por isso é importantíssimo e deve ser difundido. A leitura é o futuro das futuras gerações.
Seu Molina
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O ano novo das tragédias!

Eu acho que sou um otimista. Realmente acredito que o ano será ótimo. Para todos. É como uma metáfora utópica das alegorias transviadas.
Contudo, aos pessimistas, por não conseguir manifestar conclusões próprias, imbuo-me das palavras de José Saramago, que, num rompante de sabedoria igual àqueles do rótulo interior do sonho de valsa, escreveu, em algum lugar do ensaio sobre a cegueira, se não me engano, o seguinte: "(...)É como a vida, minha filha, começa não se sabe pra quê, e termina não se sabe por quê."
Lembro, com um pouco de pena, confesso, das vítimas do terremoto que devastou um país inteiro, Haiti. Que horror. Tragédia pior nem a de Antígona. Ou uma qualquer de Eurípides, ou Ésquilo ou Agamêmnon. Coisa brava, muitos mortos. Bem mais que os gregos antigos. Cinquenta mil mortos. Isso que é tragédia. Um minuto de silêncio. Me despeço. Seu Molina.
O DIABO DE TETAS - uma crítica

Umas diabruras grotescas e bizarras na forma e no conteúdo. Plus radical de cenas hilariantes e esplendorosas, executadas com extremo primor, embora o rigor tenha passado ao largo. As máscaras dialógicas se confundem num misto de maré azul e vermelha, em cujo oceano as embarcações deslizam fumegantes. Supostamente, dir-se-ia que a implantação vertical de sentido abstrato da melancolia cosmopolita e pungente varia nos índices de tangência equinocial. Ora, a radicalização molecular das cápsulas dramáticas não interfere, sobremaneira, nos persuasivos coquetéis molotov, de modo que os atores passeiam levinhos através da história, que vem num primeiro e primordial plano. Sinopticamente, a Pizzoca Ganassa está alheia a todas as qualidades extra terrenas. Hipoteticamente, a realidade, que é uma farsa, se vê atravessada por um diabo de tetas e um outro diabo chifrudo. Mas isso não lhe tira - da farsa – o seu caráter sintético, hiperbólico, claustrofóbico, católico, diabólico. Os diabos deitam e rolam nessa comédia mais do que rasgada de Dario Fo, matematicamente dirigida por Cássio Scapin. E você, espectador, vai deitar e rolar de rir e aplaudir e engasgar-se com o próprio riso, assim como outrora se passou com a tia da amiga da menina da cantina. De tanto rir, engasgou e ficou sem respirar por um tempão e quase desmaiou e sei lá... Acho que essa aí quase morreu de rir. Mas é porque é uma comédia maravilhosa, deliciosa, esplendorosa, majestosa e desastrosa. Venha ver. Fansástico, fenomenal, frontal. Magnífica. Ah, é a turma 58 da EAD. Os meninos estão se formando, não é legal? Tchau. Seu Molina.
Uma reflexão imagética
“Como era possível aquele fechar de olhos, aquela perda de consciência de si próprio, aquele afundar num vazio das próprias horas e depois, ao despertar, descobrir-se igual a antes, juntando os fios da própria vida.” Italo Calvino
TRAGÉDIAS NA ERA DOS DINOSSAUROS

Marcelo é uma figura de estatura mediana; carnívoro, dentes afiadíssimos, rabo que lhe serve de arma branca, olhos cor de mel, faro preciso, um dos mais velozes.
Roberta, com suas asas retangulares e pontudas, suas garras com unhas de faca, plaina sobre a mata verde, os lagos e rios e lagoas fartos de água doce, cristalina, límpida, buscando encontrar algum peixe pré-histórico...
A cadeia alimentar sustenta a biodiversidade e equilibra o crescimento populacional. Harmonioso convívio, respeito mútuo e bastante instinto entre as variadas espécies de dinossauros.
Os extensos tapetes verdes, vibrantes, cheirosos, dão conta da perfeita plenitude ecológica biodegradável, reciclável...
Marcelo é apaixonado por Roberta, mas a mãe do moço não permite o casamento.
Alega Gertrude que a família dos tiranos sauros é tradicional. Os primeiros tiranos sauros datam de cem milhões de anos remotos.
A família de Roberta, por sua vez, não chega aos pés da família dos tiranos sauros, conhecida por sua finíssima coragem. Roberta é bisneta de um tetraneto de velociraptors, espécie surgida há apenas noventa e três milhões de anos.
E, apesar de os velociraptors serem velozes, esses perdiam terreno para os tiranos, que eram atarracados nos seus membros dianteiros. Mas, como os tiranos sauros dominavam a parada antes mesmo de os outros nascerem, então os velociraptors resignavam-se.
O pai de Marcelo, num momento de faminta dor, abocanhou a pequena cabeça do irmão mais velho de Roberta, motivo pelo qual a relação inter familiar ficou bastante abalada.
Roberta e Marcelo, num rompante de coragem e ímpeto, fugiram de seus respectivos seios familiares e combinaram encontro na terceira montanha vulcânica da direita para a esquerda, dozentos e oitenta quilômetros distos do último agrupamento de velociraptors, os guardiães dos céus.
No momento em que Roberta pisou nos ombros de Marcelo, viu-se um clarão, sentiu-se um tremor de cujas posteridades não se teve jamais notícia.
*Vale frisar o que talvez seja a satisfatória justificativa aos historiadores, principalmente os pré-históricos: os dados científicos catalogados em registros e arquivos públicos acerca dos dinossauros e outros animais pré-históricos passaram muito longe das pretensões do autor.
Seu Molina
Àqueles que poucas razões teriam para esquecer das benécies corporativas do senado federal, nos últimos diários de notícia noticiados.

Com vocês, uma citação de Ruy Tapioca...
Que reino é esse em que vivemos?
Furtam-no desde os tempos de Don Dinis!
Pudesse, furtavam-lhe as águas do mar,
A cumprir o dito popular:
‘Antes fanhoso que sem nariz’.
Furtam os reis dos vassalos,
Cobrando-lhes impostos em aluvião!
Pudessem, tributavam-lhes o despertar,
O dormir e o evacuar:
‘A ocasião faz o ladrão’.
Furtam os clérigos dos fiéis,
Cobrando missas e comunhão.
Sábio é o dito popular:
‘Frade a pedir e gato a roubar
Estão cumprindo a sua obrigação.
Furtam os fidalgos dos reis,
E dos que possuem grossos cabedais.
Aprenderam a furtar os pobres,
Surrupiando-lhes os míseros cobres:
‘Grandes ladrões começam pelos dedais’.
Se neste reino todos furtam,
E o furtar é um ver se te avias,
Não seria ocioso indagar:
Se viemos todos a furtar,
Quem vigiará os vigias?
O MERCADO!
No gingado. Escuridão ilumina as trevas. Artifício. Darling. Sorriso pra cá. Sorriso pra lá. Uma boa batida de jazz. Rebolado. E estica a mão. E dá um tchau! E vai. No rebolado. Uma performance prerrogativa do ser em face do gelo seco da concepção corporativa. Vencer. Um assobio. Quem é? É o senhor vassalo das regalias profanas. Medo. Imagem. Exploração dos limites convincentes nas cascatas habitacionais da televisão. Hollywood. E, qual? Um artesão engenheiro de essências, um artista a valer...Que espaço? Recheios inebriantes transbordam e se perdem nas constantes, formas trigonométricas da burocracia vital, peça fundamental da engrenagem da máquina do relógio. Ordem e progresso. Mercado positivista. Atualíssimo. Mercado dos prazeres. Mercado hortifrutigranjeiro. Abóbora, um real. Banana, três e cinqüenta a dúzia. Caldo de cana e pastel.
UMA CITAÇÃO, BREVE, DE ÁLVARO DE CAMPOS, BEM LEVE, PARA REFLEXÃO!!!
ENSAIO SOBRE A IRRITAÇÃO!

Nessa semana passada, tivemos perante os olhos brasileiros o maior exemplo da confluência celular dimensional, que também pode ser chamada de ‘irritação’.
A irritação irrisória da irresponsabilidade irrefletida na irritabilidade irritante é evidente nesse cenário global em que vivemos.
O goleiro do Palmeiras irritou-se com o time por causa do jogo. O Wanderlei Luxemburgo irritou-se com o Marcos por causa da declaração. O Daniel irritou-se com o Eduardo por causa do controle remoto.
A irritação é condição sine qua non da existência global de esfera esfumaçada, num momento em que as eventualidades da pós-modernidade não dão conta de si mesmas.
O guarda irritou-se com o vagabundo. O inspetor de polícia irritou-se com o inspetor, E assim vai até chegar no presidente dos Estados Unidos da América.*
É uma cadeia de plena irritação pulsante e vibrante na polaridade negativa de elétrons radioativos. A irritação micro celular, no limite, alcança irritação estratosférica da sociedade humana.
De outra parte, a relação histriônica da supérflua irreverência frenética persiste em chamar de irritante a complexa participação sintética de canais sensoriais responsáveis pelo sentido de irritação.
Ora, que belo exemplo esse do futebol, em que todo estado de coisas envolve um pleno e alegórico e massificante sentimento de paixão. A paixão, por sua vez, é o invólucro perfeito da intensidade subterrânea e menstrual; a irritação, per si!
Como questionamento pseudo-conclusivo, deixo à baila a problemática substantiva das adjetivações adverbiais e sintáticas, bem como dos fonemas assindéticos verbais, acerca da palavra que carrega em si a responsabilidade de concluir-se. Irritação.
*O presidente dos Estados Unidos da América irritou-se com sua secretária de estado, que irritou-se com o ministro da guerra, que irritou-se com o ministro de defesa, que irritou-se com o diretor do FBI , que irritou-se com o chefe de polícia de Nova York.
Este, por sua vez, irritou-se com o patrocinador anônimo.
O dono da fábrica de armas irritou-se com o presidente do conselho, que irritou-se com o vice presidente geral. Este irritou-se com o vice presidente de finanças, que irritou-se com o diretor de sistemas, que irritou-se com o gerente geral de logística, que irritou-se com o coordenador de frotas, que irritou-se com o supervisor dos engenheiros mecatrônicos, que irritou-se com o engenheiro com doutorado em balística, que irritou-se com o estagiário estudante do MIT , que irritou-se com a sua namorada.
A namorada irritou-se com o irmão, que irritou-se com a mãe, que irritou-se com o pai, que irritou-se com a sogra, que irritou-se com a filha, que irritou-se com a empresa da qual comprou mini berimbaus para dar de brinde na festa de seu casamento com o estagiário.
A empresa que vende os mini berimbaus irritou-se com o administrador do site que efetuou a venda. Um brasileiro, obviamente.
Pereira da Silva irritou-se com o síndico do prédio onde mora, que irritou-se com o zelador, que irritou-se com o porteiro, que irritou-se com o faxineiro, que irritou-se com o morador que jogou papel de bala no chão do elevador.
Este irritou-se com o caixa do banco, que irritou-se com o motorista do ônibus que não parou no ponto, que irritou-se com o motoboy, que irritou-se com a madame da Mercedes, que irritou-se com o manobrista do salão de beleza, que irritou-se com o menino que pede esmolas, que irritou-se com a madame da Mercedes, que irritou-se com a hostess do salão de beleza...
Na verdade, não interessa. Mas não se irrite.
PS: A publicação do texto não é imediata à laboração da escrita, nesse caso.
A QUARTA PAREDE, um filme curto. Com Daniel Kronenberg e Giuliana Maria
http://www.youtube.com/watch?v=HotPhC7QH2w
PRAÇA DO RELÓGIO

A cotovia canta. O quero-quero canta. O pardal canta e faz uma pose em cima da pedra cinza. Mal se vê as orelhas levantadas de um cachorro atento não sei em que, que late vez ou outra. Uma árvore. E outra. E outra. Um cogumelo verde iluminado pela exuberante e minguante lua de uma noite de outono. Uma pedra. E outra. E outra. Um relógio. Muitas pedras e cimentos e tijolos e concreto, atravessando o rio. Villa-Lobos. A ilha subversiva e submersa da anti tecnologia estudantil prevalece, no plano da utopia, sobre a obscuridade cosmo paulistana.
Que se diga da utopia um sonho somente, já é o bastante. Apenas um sonho.
É hora de enfrentar a plasmose zooférica da retaguarda capitalista, deixar de lado a utópica possibilidade do idealismo artístico e arqueológico e colocar o leite na geladeira da pandora.
NO PAPEL DA VÍTIMA – CRÍTICA TEXTUAL SINÓPTICA


O que eu devo fazer? Dá-me um conselho.
Por que tanta pressa? Você não chega a lugar algum sem faculdade.
O caranguejo tem cheiro de mijo.
Irmãos Presniakov. A descarga do banheiro da casa dos meus pais. Valya. Uma impossibilidade transgênera de envolvimento cultural. Desperdiçar o tempo num mundo cão. Inspetores investidos do espírito de nariz vermelho, assim como o sargento, assim como o cozinheiro, assim como o maestro virtual da orquestra de câmara, que foge, aos arrepios, do palhaço piolin e seu assistente arrelia. É simples. Muito simples. E cerveja? Tem? E bolo de semente de papoula? ...ele é inteligente, mas ele não ta nem aí, ta cagando e andando pra isso...
A essa altura isso é importante?
‘Começando a reconstituição do crime referente ao caso da reconstituição do crime feita pelo Inspetor C. D. Chnurov...’
Faculdade de Filologia da Universidade Estadual dos Urais (Universidade Gorki, em Ekaterinburg) Oleg e Vladimir. Um gravador no armário. Perplexidade.
NO PAPEL DA VÍTIMA
EAD – Turma 58
Direção de Ariela Goldman
De 8/7 a 2/8, quarta a sábado, 21h e domingo, 20h
No Teatro Laboratório da ECA
Campus da Cidade Universitária
Entrada gratuita
ARROTO

A explicação terminológica dos terminais explicativos não se obstam por si mesmas somente no prisma categórico das emoções psicofísicas inspiradas no método de Constantin, mas também dentro da abrangência retumbante das ervas daninhas universais em suas excelentes bizarrices mitocondriais.
A chateação gerada das profíquas balanças mancas, ao certo, reconhece-se na base pictórica das camuflagens autoperambulares. Nisso reside o ponto central da questão sistêmica do militarismo ruralista no Rio Araguaia. O caleidoscópio lunar traz detalhe da bandeira norte-americana fincada pelo tripulante da Apollo 11.
Por sua vez, o microscópio flagra a deficiência renal a partir do núcleo da célula do sangue subtraído de um diabético.
Nos Estados Unidos, o Mac Donald´s vendeu bilhões de Bic Mac. E trilhões de coca-cola. Um Yes soltado do diafragma. Cheiro de picles. A visceralidade sustentável é programada com libertinagem proporcional à falta de pudor sociológico.
Os assuntos secretos da diretoria legislativa da capitania hereditária vêm à tona num momento em que a anestesia midiática se faz potente na ludibrio organizado pelos coronéis. O escândalo das equimoses epiteliais da laringe, ao escapar da parede quando o arroto passa em direção ao princípio da língua, é um exemplo da temática pertinente aos jardineiros e mordomos e motoristas pagos pelo Senado Federal. E vice versa.

USP, NOVE DE JUNHO DE DOIS MIL E NOVE – UM ENSAIO SOBRE O CONCEITO DA ESTÁTUA VIVA
(Referência ao triste episódio ocorrido entre membros da comunidade universitária e a força tática da Polícia Militar do Estado de São Paulo)
Se a estátua não se move, a estátua viva, por sua vez, é viva em seu não movimento.
Se imaginarmos uma estátua viva no parque do Ibirapuera, numa tarde de domingo, tirante o fato do chapéu passado, teremos um exemplo perfeitamente hipotético daquilo que se toma como premissa básica do próprio conceito da estátua viva.
Para o domingueiro a passeio no parque, a estátua é imóvel. Porém, se adentrarmos as células e músculos e ossos e sangue e veias e artérias e órgãos e olhos e pulso e ritmo da estátua, veremos que ela está mais viva do que nunca. Um anseio e desejo e necessidade de se fazer notar perante a apatia semântica do funcionário público com seu cachorro, da doméstica e o cobrador de ônibus que levam seus filhos para fazer um piquenique no parque, do juiz de direito que pratica Cooper numa bela tarde ensolarada de domingo de quase inverno.
Tudo isso para trazer à metafórica revelação o episódio dos estudantes da Universidade de São Paulo, e seus funcionários, e seus professores. Transbordamento de vísceras surpreendentes, vibrantes e tonificantes.
A Força Tática da Polícia Militar transfere ao âmbito institucional a responsabilidade de infringir as leis constitucionais de garantias fundamentais dos direitos humanos.
A USP virou praça de guerra. Os escudos e capacetes blindados cuspiam fumaças derivadas das famosas bombas de efeito moral e gás de pimenta malagueta, a mais forte.
O prédio da faculdade de letras e filosofia virou câmara de gás. Não foi bolinho não.
São níveis diferentes de envolvimento cultural, numa explícita, mas deslocada citação aos irmãos Presniakov, em ‘No papel da vítima’.
Como se a reitoria e o governo do Estado e a mídia na sua imensa maioria fossem transeuntes domingueiros que passeiam no parque de domingo de tarde e não enxergam as células e os músculos e as artérias e as idéias e os pulsos e o ritmo e os anseios e os desejos e as necessidades dos estudantes, dos funcionários, dos professores da universidade de São Paulo, que não passam de estátuas vivas aos olhos alheios e indiferentes e desinteressados.
Como manifestação de repúdio absoluto contra a invasão da Polícia Militar no campus da USP, no Butantã, em São Paulo, bem como contra o disparo desenfreado de agressões desconexas contra os estudantes, deixo aqui meu subscrito.
Seu Molina.
NA RUA

Eu vi um cachorro marrom lambendo a água da sarjeta da Avenida Cidade Jardim. Na caranga muitas coisas se perdem. O vulto da vermelhidão semafórica perpetra cintilantemente na faixa listrada um holofote devasso que interrompe o fluxo pneumático do trânsito cosmo lunático.
A luz do poste, que se funde com a lua ao olhar de olhos desenraizados, ilumina a superfície diagonal do estabelecimento precoce da relação biográfica de Marta Suplicy com a mapografia panorâmica da cidade de São Paulo.
A aparição repentina da autosuficiência regida sob a forma de pequenos morcegos ensangüentados translucida, através das travessas e becos diagonais, as transversais atravessadas na noite.
Com o auxílio de uma insígnia supervalorizada e um cano de ferro chumbado, os homens de bonés cinzas andam em seus carros iluminados e barulhentos. Equipados e sempre alertas, a ronda programática é feita diuturnamente sob a égide de sãos padroeiros e correligionários.
Por outro lado, a água que o cachorro vira lata bebia exerce a função, nessa parábola abstemológica, da precariedade sintomática das anomalias urbanas próprias dos elementos caóticos da cidade grande em dias de muito chuva. Sete mil garrafas pet, entre refrigerantes e águas e sucos e iakultes, trezentos potes de requeijão e iogurtes, alguns vazios e outros estragados, e a lixeira suburbana se consome vagarosamente implodindo as fundações palaciais de forma a perdurar para a eternidade a imagem arrasadora da destinação institucionalizada.
A luz do poste, que se funde com a lua ao olhar de olhos desenraizados, ilumina a superfície diagonal do estabelecimento precoce da relação biográfica de Marta Suplicy com a mapografia panorâmica da cidade de São Paulo.
A aparição repentina da autosuficiência regida sob a forma de pequenos morcegos ensangüentados translucida, através das travessas e becos diagonais, as transversais atravessadas na noite.
Com o auxílio de uma insígnia supervalorizada e um cano de ferro chumbado, os homens de bonés cinzas andam em seus carros iluminados e barulhentos. Equipados e sempre alertas, a ronda programática é feita diuturnamente sob a égide de sãos padroeiros e correligionários.
Por outro lado, a água que o cachorro vira lata bebia exerce a função, nessa parábola abstemológica, da precariedade sintomática das anomalias urbanas próprias dos elementos caóticos da cidade grande em dias de muito chuva. Sete mil garrafas pet, entre refrigerantes e águas e sucos e iakultes, trezentos potes de requeijão e iogurtes, alguns vazios e outros estragados, e a lixeira suburbana se consome vagarosamente implodindo as fundações palaciais de forma a perdurar para a eternidade a imagem arrasadora da destinação institucionalizada.
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